Eu
nunca fui a um velório! Eu disse isso ontem quando a Camila fazia uma pizza
portuguesa para nós. Portuguesa era o estilo, o sabor era sardinha. Aprendeu a
receita de tanto ajudar a sua avó a fazer. – Sua vó era carioca? – perguntei. Não.
Portuguesa! – ela disse. Camila havia falado isso momentos antes, mas eu não
tinha registrado. Os outros quatro ao redor da mesa já haviam retido essa
informação óbvia.
A
vó da Camila morreu em 2010 eu acho. Ela falou a data ontem. Eu não lembro. A
minha vó Ana morreu em 2013, eu lembro. Não fui ao velório. Eu nunca fui. Já
fui a alguns enterros. Poucos. Nenhum de alguém tão próximo. Da minha vó, não. Respaldado
pela desculpa de morar em outro estado, não fui. Chorei um pouco no dia. Mas hoje
dois anos e meio depois, isso me atravessou.
Estava
caminhando com a Thaís e a Lola. Sol. Calor. Uma alameda coberta de árvores. A
Lola me puxava querendo cheirar algo no mato. Enquanto a Thaís no meio de alguma
história que me contava, falou em sotaque mineiro – "Que nem sua vó dizia: os
olhos tão azul, que dava medo”.
(Alguma
interjeição de dor interna deveria aparecer aqui). Como um sopro, senti
saudade. Somente dois anos e meio depois do acontecimento meu corpo sentiu que
nunca mais ouviria e veria minha vó. Ela apareceu nítida na minha mente. Uma
bela imagem. Poucos quadros. Se forçar minha imaginação, consigo alguma sequência.
Com o que tenho registrado sobre minha vó, consigo vê-la agora na minha sala.
Ela poderia falar – “Marcéu, liga a tv pra mim. Tá na hora da novela.” Ela
adorava novela das seis. “Éramos seis”. Quando criança assisti todos os
capítulos dessa novela ao lado dela e do meu vô. Tinha esquecido dessa novela.
Ontem,
éramos seis ao redor da mesa. Enquanto a Camila preparava a pizza e contava
sobre sua avó, não lembro de nada que tenha mexido comigo. Mas acho que aquela
experiência pavimentou o caminho até alguma marca. E talvez a fala da Thaís,
hoje, tenha sido só o combustível para eu me atravessar. Ou tudo isso é uma
bobagem, e o ativador foi algo que eu nem suponho. Talvez o cheiro que a Lola
sentiu no mato.
(Marcéu)
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