sábado, 16 de abril de 2016

Sobre ontem. Ou a composição de uma perda hoje.

 Eu nunca fui a um velório! Eu disse isso ontem quando a Camila fazia uma pizza portuguesa para nós. Portuguesa era o estilo, o sabor era sardinha. Aprendeu a receita de tanto ajudar a sua avó a fazer. – Sua vó era carioca? – perguntei. Não. Portuguesa! – ela disse. Camila havia falado isso momentos antes, mas eu não tinha registrado. Os outros quatro ao redor da mesa já haviam retido essa informação óbvia.
A vó da Camila morreu em 2010 eu acho. Ela falou a data ontem. Eu não lembro. A minha vó Ana morreu em 2013, eu lembro. Não fui ao velório. Eu nunca fui. Já fui a alguns enterros. Poucos. Nenhum de alguém tão próximo. Da minha vó, não. Respaldado pela desculpa de morar em outro estado, não fui. Chorei um pouco no dia. Mas hoje dois anos e meio depois, isso me atravessou.
Estava caminhando com a Thaís e a Lola. Sol. Calor. Uma alameda coberta de árvores. A Lola me puxava querendo cheirar algo no mato. Enquanto a Thaís no meio de alguma história que me contava, falou em sotaque mineiro – "Que nem sua vó dizia: os olhos tão azul, que dava medo”.  
(Alguma interjeição de dor interna deveria aparecer aqui). Como um sopro, senti saudade. Somente dois anos e meio depois do acontecimento meu corpo sentiu que nunca mais ouviria e veria minha vó. Ela apareceu nítida na minha mente. Uma bela imagem. Poucos quadros. Se forçar minha imaginação, consigo alguma sequência. Com o que tenho registrado sobre minha vó, consigo vê-la agora na minha sala. Ela poderia falar – “Marcéu, liga a tv pra mim. Tá na hora da novela.” Ela adorava novela das seis. “Éramos seis”. Quando criança assisti todos os capítulos dessa novela ao lado dela e do meu vô. Tinha esquecido dessa novela.

Ontem, éramos seis ao redor da mesa. Enquanto a Camila preparava a pizza e contava sobre sua avó, não lembro de nada que tenha mexido comigo. Mas acho que aquela experiência pavimentou o caminho até alguma marca. E talvez a fala da Thaís, hoje, tenha sido só o combustível para eu me atravessar. Ou tudo isso é uma bobagem, e o ativador foi algo que eu nem suponho. Talvez o cheiro que a Lola sentiu no mato.
(Marcéu)

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