sábado, 16 de abril de 2016

Ruína

A arquitetura ainda está lá. Tijolo sobre tijolo. Vazio. A luz entra, o jardim continua a crescer. Quarto. Vazio. A chave dourada abre um espaço que começa a ser preenchido por uma bola que rola. Ele está lá. De volta. Às voltas com a bola, ele sente o frio do azulejo. O tempo é entre. Suspenso. Aqui e lá é um só. Como um cego que nunca absorveu qualquer imagem a partir dos olhos, ele (re)cria este lugar no seu imaginário. O vazio o obriga a construir. No corredor, a bola continua rolando impulsionada pela falta. Durante esta longa travessia, ele escuta um conversa na cozinha, e tenta desenhar o Quem. Vazio. Quem? Um vulto. Quase, quase. Escapa.
Vazio.
Nada.
A arquitetura quase se esfacela, mas ele agarra os tijolos. Impositivo, reconstrói.
A lacuna não pode existir, é preciso construir. Construir na falta. Construir no escuro.  
Ele não sabe onde está, mas a arquitetura ainda está lá.
(Marcéu Pierrotti)

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