sábado, 16 de abril de 2016

Proteu

Como realizar o procedimento de tornar visível, aquilo que não podemos ver? Como ocorre este processo de dança das imagens que giram e rodopiam entre as imagens possíveis da memória? Tratar deste material diáfano, é perder-se constantemente. Um tema tão amplo pode abarcar tudo aquilo que existe. Tudo é conteúdo possível para a memória. Seus desenhos não se oferecem por inteiro como gomos de uma fruta da qual podemos extrair por completo o sumo e talvez seja esta a qualidade que mais nos interessa neste tema investigado - saber que escolhemos pesquisar um campo de dúvidas e não de certezas. A pergunta inicial é: como conduzir-se por um labirinto que se desdobra em si mesmo? Como colocar em análise, em pesquisa de cena, esta massa amorfa que embola ocorrido e fato imaginado, que desloca nossa noção do que é real, que é condicionada por nossa percepção e briga com aquilo que entendemos como hábito, tempo, sujeito. Como dar forma ao que é flutuante e instável, estranhamente desconhecido, poroso e caótico? 

Na Odisseia, ao receber a visita de Telêmaco, Menelau narra seu encontro com Proteu, divindade marinha que poderia revelar-lhe que deus o mantinha preso numa ilha e evitava o seu regresso à terra natal após o final da guerra de Tróia. Disfarçando-se com peles de focas mortas, prepara uma emboscada próximo ao oceano a fim de capturá-lo entre os braços violentamente por saber se tratar de uma criatura indócil e arredia. Ao vê-lo sair dos mares, agarra-o com a ajuda de seus companheiros. Eis então que o deus oceânico assume diversas formas que se transmudam incessantemente. Numa velocidade inacreditável assume a aparência de seres serpenteantes, depois transforma-se em leão com farta crineira, então transfigura-se num dragão, numa pantera, num javali, vira água corrente e aparece também como uma frondosa árvore. Após a série de metamorfoses, assume sua velha figura para então revelar por que sendas marítimas deveriam seguir para que se retornasse ao lar. Em nossas reuniões diárias, nos encontramos, nesse início de pesquisa, a nos degladear em situação semelhante a de Menelau e seus consortes. Tentamos aprisionar esta entidade cambiante, sem estrutura clara, de ordenação indefinida que se desloca substancialmente apesar da nossa força e tentativa de retê-la. Sua dimensão pode ser qualquer uma, forte, suave, espessa ou escassa, sua aparência é ardilosa e traiçoeira, escapa por entre os dedos ou nos ataca ferozmente. Pretendemos seguir sem saber o rosto de Proteu. Continuamos tentando retornar ao lar, sem informações dos numes divinos. Olhamos para o mar e somos atravessados por imagens que não param, não se cansam.

(Pedro)

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