sábado, 16 de abril de 2016

Fungos




os móveis estão sendo engolidos ao sabor das elevações da maré, uma casa se afunda num solo arenoso, é atravessada por uma lâmina que a corta ao meio, fere seu interior. a casa sangra e derrama seu material, lustre, cadeira, mesa, gato. derrete como um sorvete, mancha o estofado. entra luz pela janela que se refrata por todo o ambiente interno em cacos espectrais de tonalidades variáveis de laranja, que desenham formas geométricas 
sem nome.
existe um bloco que é uma sala. um banheiro é um tampo de mármore. é uma saboneteira na qual nada uma família de baleias de plástico. a cortina do box cola na nossa perna enquanto a gente toma banho. o banheiro é um adesivo pele-água. o papel-higiénico já está quase no fim. o espelho é um quadro de Sarah Bernhardt e as rosas que se encontram ao seu pé são flores de vidro na qual eu sempre vi um rosto invadindo a minha
intimidade. 
a cozinha é o local mais à sombra de toda a casa, de onde a geladeira grita obsolescência, o fogão e a máquina de lavar apodrecem e os azulejos não ficam satisfeitos com a sua forma, mudam sua cor, deslocam figuras no
espaço. 
o recorte dos cômodos é de vidro fumê
a casa é um
buraco.





"o tempo existiu esse tempo todo. não dá pra matar o tempo com o seu coração. tudo toma tempo.” eu li essas palavras em alguma parte do globo, de pé em algum corredor, ou sentado numa poltrona confortável. eu acredito que eu estava num ônibus, mas eu poderia estar na margem de uma piscina, ou deitado de barriga virada pra baixo na minha cama balançando as minhas pernas pra lá e para cá. eu posso ter lido isso numa viagem ou quando eu estava esperando pra ser atendido no dentista. eu posso ter imaginado um urso quando eu li essas palavras escritas no livro, eu posso ter atendido o celular entre as frases, ou eu posso ter me demorado nelas durante 34 minutos ininterruptos. eu posso ter comido brócolis logo após a leitura dessas 3 orações. talvez eu tenha me masturbado algumas horas antes de passar os olhos por ela, talvez eu tenha cruzado com uma moça divorciada nesse mesmo dia na rua. eu devo ter matado alguns insetos nesse dia e provavelmente eu dei alguma risada que eu logo me arrependi de ter dado num período próximo a leitura desse texto que grifei. “a água só é macia quando estamos dentro dela”. eu posso ter imaginado que eu li isso. 





(Pedro)
 (As Imagens são da série "Fungos" de Nuno Ramos)




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