domingo, 24 de abril de 2016

Primeiros textos com Fernando

Marcéu

Ninguém tinha me levado para a praia naquele dia. Pela manhã eles tinham me prometido, mas meu pai ficou enrolado arrumando o barco, e minha mãe dizia não ser capaz de me levar para surfar sozinha. Vendo a noite chegar, tive a certeza que não sentiria o sal colar no meu corpo. Peguei a prancha. Fechei a porta. E fui surfar.
Ondas grandes, pequenas, tubulares, meu colchão se transformava em uma variedade delas. Tomei um caldo. Caí. No chão, vi a quilha quebrada. Doeu. De repente, meu California Dream desabou e com ele minhas lágrimas. Frustação. – Brincadeira estúpida. A vergonha tomou conta de mim, e eu não consegui contar o que aconteceu. Disse que fui pegar a prancha em cima do beliche e ela caiu. Minha mãe resolveu facilmente. Colocou a culpa na Maria. – Onde já se viu guardar prancha lá em cima. A Casa Grande mandava, a Senzala obedecia.

Instantaneamente tive um alívio por não ser pego, porém a vergonha e a culpa estavam me esperando no travesseiro.   

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