Marcéu
Ninguém tinha me levado para a praia naquele dia. Pela manhã
eles tinham me prometido, mas meu pai ficou enrolado arrumando o barco, e minha
mãe dizia não ser capaz de me levar para surfar sozinha. Vendo a noite chegar,
tive a certeza que não sentiria o sal colar no meu corpo. Peguei a prancha.
Fechei a porta. E fui surfar.
Ondas grandes, pequenas, tubulares, meu colchão se
transformava em uma variedade delas. Tomei um caldo. Caí. No chão, vi a quilha
quebrada. Doeu. De repente, meu California Dream desabou e com ele minhas
lágrimas. Frustação. – Brincadeira estúpida. A vergonha tomou conta de mim, e
eu não consegui contar o que aconteceu. Disse que fui pegar a prancha em cima
do beliche e ela caiu. Minha mãe resolveu facilmente. Colocou a culpa na Maria.
– Onde já se viu guardar prancha lá em cima. A Casa Grande mandava, a Senzala
obedecia.
Instantaneamente tive um alívio por não ser pego, porém a
vergonha e a culpa estavam me esperando no travesseiro.
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