Primeiros textos com Fernando...
JANAINA
1 - Encontro. Carona. Café. Conversas sobre desdobramentos da memória, e possibilidades
artísticas. “O que de mais belo, você já fez na vida?” Lembranças de casa. Nem sempre
saber tudo de uma história é o mais importante. Sair do lugar conhecido, usual. Meu
aniversário de 30 anos. ...“o luto põe o mundo em movimento”. Onde esse texto te toca
pessoalmente? Pessoalmente... Um texto só cumpre seu papel, se
estabelece algum diálogo com quem o lê. Se o leitor consegue estabelecer pontes de
contato entre o texto e algo em si. Se é modificado. Se não é só um texto. A linha tênue
entre presente, passado e futuro. A sensação de que fazemos parte de algo além. Qual o
nosso poder de escolha? Até onde podemos modificar o que nos está acontecendo agora?
E todas as revoluções? Somos movidos pelas perdas? Memória como lacuna. O que já não
é. Que agora é mais vivo do que nunca. Quem nunca?
2 – Chão vermelho. Trancas na porta da sala. Banheira grande, no único banheiro. Chico
Buarque na parede do corredor. A mão da Ana que eu segurava até adormecer. O quarto
que eu dividi com minha mãe por alguns anos. O Gonzaguinha na vitrola. O batente da
porta da cozinha sujo dos meus pés de menina que sabiam escalar. Rua Real Grandeza
171, apt 602, ao lado da padaria Imperial. Mil folhas de doce de leite, quindim, frango
assado na televisão de cachorros (como dizia a minha mãe) e pão quentinho quando eu
chegava do ballet. Dos 4 aos 29. Ana Lúcia, que me colocava no banho, quando eu não
queria tomar, que me dava batata frita escondido da minha mãe, que me dava a mão pra eu
dormir, quando minha mãe ainda não tinha chegado do trabalho, minha mãe, que me amou,
que me alimentou, me acalentou e aguentou a adolescente revoltada sozinha, que sempre
esteve ali. A mulher mais forte do mundo. E meu pai. Dele lá, eu só lembro da minha
ansiedade em esperá-lo chegar. Ah, e o Cristo. Um janelão com vista pro Cristo. Foi onde
eu vivi quase tudo. Todos os meus inícios.
JULIA
1º texto (narrativo)
Eram 5 atores e um diretor. Eles, brasileiros. Ele, argentino. Dois cafés em dias anteriores
haviam sido necessários para que quebrassem o gelo entre eles, para que se conhecessem
um pouco. Essa seria então a terceira vez que se veriam, o terceiro encontro. Ele chegou
de carona com uma das atrizes do grupo. Enquanto esperavam o café ficar pronto,
ocuparam as cadeiras dispostas em torno da mesa e conversaram durante muito tempo. A
harmonia entre eles era visível e a diferença de idioma, que talvez pudesse ser um
problema, colaborou para que todos estivessem com a escuta ainda mais ativada naquela
terça-feira. Pareceram realmente se reconhecer alí. Em um dado momento, fecharam os
olhos e olharam pra dentro. O diretor dividiu o seu olhar entre os 5 atores, que continuavam
olhando pra dentro. Depois discutiram desejos e definiram tarefas para um próximo
encontro. Também tomaram café.
2º texto (1ª pessoa)
Quando ele nos pediu pra lembrar de uma casa da infância, eu escolhi a casa da minha vó.
Um cheiro de bolo quentinho invadiu a minha cabeça. Tentei, talvez, pensar num outro
cenário, num lugar um pouco mais recente pra mim, mas não consegui. Eu era invadida por
gelatinas multi-coloridas com perfume de frutas que me lembravam aquelas balinhas da
porta do colégio. Eu amava as balinhas da porta do colégio. Me deliciava com aquele
guarda-chuva de chocolate que tinha cheiro de manteiga e que me lembrava tudo, menos
chocolate. Na casa da minha vó, o chocolate era chocolate de verdade. E a bala de coco
não tinha essência de baunilha como tinham as balas do colégio. Durante uma boa parte da
minha adolescência eu usei colônia de baunilha, mas hoje prefiro os perfumes cítricos. Os
doces me enjoam.
CAMILA
TEXTO 1
1º de março de 2016. 1º encontro com Fernando. 1ª vez em que nos permitimos ser o
próprio objeto a ser pesquisado. 1ª vez em que nossos corpos teórico-práticos são apenas um. O
corpo se faz presente a partir do pensamento.
Fernando fala sobre espaços da cidade que estão escondidos, sobre os que não vemos ou
escolhemos não ver. Eu me pergunto: como construo uma imagem? Qual espaço há para minha
imaginação e para o que eu vejo ou deixo de ver? Ele nos pergunta qual memória esqueceria. Eu
penso que nunca precisei de muito esforço para esquecer as coisas e que provavelmente eu passei
por experiências que queria esquecer e de fato, esqueci. Mas esqueço das coisas que lembro e
gostaria de esquecer. Nesse momento, me perco um pouco do grupo, pensando em mim, nas
minhas lacunas entre lembranças. Não sei sobre o que falaram. Retorno quando Fernando nos
pergunta qual memória gostaríamos de ter. Na sequência, ele nos propõe percorrer uma casa de
nossa infância e percebo que as lacunas da minha memória se tornam espaços físicos desse lugar
que vivi até os 7 anos. Lembro do meu quarto inteiro, mas não da cama em que dormia. Abre-se ali
um vazio real, concreto, de um espaço não habitado por um móvel que eu sei que existia. Esse vazio
se desdobra na cama de meus pais, exatamente no momento em que tentando fugir do sono, botei
a cabeça no ombro da minha mãe e perguntei se crianças morriam. Durante todo meu trajeto do
quarto até a cozinha os objetos ausentes em minha memória se desdobram em situações e em
novas imagens, initerruptamente.
Ao final do exercício lembro do Didi-Huberman citando as ondas do mar e do fascínio da
Janaina ao perceber a sucessão infinita de mortes que as imagens podem carregar.
TEXTO 2
Minha avó morreu no dia de seu nascimento, aos 80 anos. Foi também o dia da minha
primeira estreia no teatro. Na noite anterior, ao falar com minha mãe pelo telefone, pedi que ela
não me ligasse no dia seguinte porque queria ficar sozinha e disse que nos encontraríamos ao final
do espetáculo . Não queria falar com ninguém; havia em mim um misto de ansiedade, medo e
desânimo. A peça foi terrível: esqueci texto, errei marcas, entrei com as calças abertas. Sentia-me
oca, vazia, como se eu estivesse esgotada. Não saía uma lágrima ou riso. Ao final do espetáculo,
muito chateada e solitariamente, corri para o hall de entrada do teatro, onde todos esperavam os
atores. Meus olhos rapidamente buscaram a minha mãe, e quando ela se virou para me retribuir o
olhar, sua expressão era de tanta pena em relação a mim, que eu entendi o que havia acontecido. O
seu olhar, à distancia, silenciou qualquer enunciado, e me fez transbordar em lágrimas. Enquanto ela
cruzava a sala para me abraçar, eu pensei que minha avó não poderia ter feito isso comigo naquele
dia; era muito injusto. Senti ódio e imediatamente vergonha por odiar alguém que eu amava
demais, no dia da sua morte. Porém, eu precisava e queria estar feliz, como todos deviam estar
naquele salão. A interposição entre a vida e a morte abriam em mim um buraco tão grande quanto
o silêncio da minha mãe naqueles breves segundos. Ao tentar descer as estreitas escadas do lugar,
uma mão me puxou de volta, pedindo uma fotografia. Alguém beijou meu rosto, eu esperei um
clique e fui embora dali, onde me parece que já não estava desde o início.
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