domingo, 17 de abril de 2016

Primeiros textos com Fernando...

JANAINA

1 - Encontro. Carona. Café. Conversas sobre desdobramentos da memória, e possibilidades 

artísticas. “O que de mais belo, você já fez na vida?” Lembranças de casa. Nem sempre 

saber tudo de uma história é o mais importante. Sair do lugar conhecido, usual. Meu 

aniversário de 30 anos. ...“o luto põe o mundo em movimento”. Onde esse texto te toca 

pessoalmente? Pessoalmente...                        Um texto só cumpre seu papel, se 

estabelece algum diálogo com quem o lê. Se o leitor consegue estabelecer pontes de 

contato entre o texto e algo em si. Se é modificado. Se não é só um texto.  A linha tênue 

entre presente, passado e futuro. A sensação de que fazemos parte de algo além. Qual o 

nosso poder de escolha? Até onde podemos modificar o que nos está acontecendo agora? 

E todas as revoluções? Somos movidos pelas perdas?  Memória como lacuna. O que já não 

é. Que agora é mais vivo do que nunca. Quem nunca?



2 – Chão vermelho. Trancas na porta da sala. Banheira grande, no único banheiro. Chico 

Buarque na parede do corredor. A mão da Ana que eu segurava até adormecer. O quarto 

que eu dividi com minha mãe por alguns anos. O Gonzaguinha na vitrola. O batente da 

porta da cozinha sujo dos meus pés de menina que sabiam escalar. Rua Real Grandeza 

171, apt 602, ao lado da padaria Imperial. Mil folhas de doce de leite, quindim, frango 

assado na televisão de cachorros (como dizia a minha mãe) e pão quentinho quando eu 

chegava do ballet. Dos 4 aos 29. Ana Lúcia, que me colocava no banho, quando eu não 

queria tomar, que me dava batata frita escondido da minha mãe, que me dava a mão pra eu 

dormir, quando minha mãe ainda não tinha chegado do trabalho, minha mãe, que me amou, 

que me alimentou, me acalentou e aguentou a adolescente revoltada sozinha, que sempre 

esteve ali. A mulher mais forte do mundo. E meu pai. Dele lá, eu só lembro da minha 

ansiedade em esperá-lo chegar. Ah, e o Cristo. Um janelão com vista pro Cristo. Foi onde 

eu vivi quase tudo. Todos os meus inícios.


JULIA

1º texto (narrativo)

Eram 5 atores e um diretor. Eles, brasileiros. Ele, argentino. Dois cafés em dias anteriores 

haviam sido necessários para que quebrassem o gelo entre eles, para que se conhecessem 

um pouco. Essa seria então a terceira vez que se veriam, o terceiro encontro. Ele chegou 

de carona com uma das atrizes do grupo. Enquanto esperavam o café ficar pronto, 

ocuparam as cadeiras dispostas em torno da mesa e conversaram durante muito tempo. A 

harmonia entre eles era visível e a diferença de idioma, que talvez pudesse ser um 

problema, colaborou para que todos estivessem com a escuta ainda mais ativada naquela 

terça-feira. Pareceram realmente se reconhecer alí. Em um dado momento, fecharam os 

olhos e olharam pra dentro. O diretor dividiu o seu olhar entre os 5 atores, que continuavam 

olhando pra dentro. Depois discutiram desejos e definiram tarefas para um próximo 

encontro. Também tomaram café.


2º texto (1ª pessoa)

Quando ele nos pediu pra lembrar de uma casa da infância, eu escolhi a casa da minha vó. 

Um cheiro de bolo quentinho invadiu a minha cabeça. Tentei, talvez, pensar num outro 

cenário, num lugar um pouco mais recente pra mim, mas não consegui. Eu era invadida por 

gelatinas multi-coloridas com perfume de frutas que me lembravam aquelas balinhas da 

porta do colégio. Eu amava as balinhas da porta do colégio. Me deliciava com aquele 

guarda-chuva de chocolate que tinha cheiro de manteiga e que me lembrava tudo, menos 

chocolate. Na casa da minha vó, o chocolate era chocolate de verdade. E a bala de coco 

não tinha essência de baunilha como tinham as balas do colégio. Durante uma boa parte da 

minha adolescência eu usei colônia de baunilha, mas hoje prefiro os perfumes cítricos. Os 

doces me enjoam.


CAMILA

TEXTO 1

1º de março de 2016. 1º encontro com Fernando. 1ª vez em que nos permitimos ser o 

próprio objeto a ser pesquisado. 1ª vez em que nossos corpos teórico-práticos são apenas um. O 

corpo se faz presente a partir do pensamento. 

Fernando fala sobre espaços da cidade que estão escondidos, sobre os que não vemos ou 

escolhemos não ver. Eu me pergunto: como construo uma imagem? Qual espaço há para minha 

imaginação e para o que eu vejo ou deixo de ver? Ele nos pergunta qual memória esqueceria. Eu 

penso que nunca precisei de muito esforço para esquecer as coisas e que provavelmente eu passei 

por experiências que queria esquecer e de fato, esqueci. Mas esqueço das coisas que lembro e 

gostaria de esquecer. Nesse momento, me perco um pouco do grupo, pensando em mim, nas 

minhas lacunas entre lembranças. Não sei sobre o que falaram. Retorno quando Fernando nos 

pergunta qual memória gostaríamos de ter. Na sequência, ele nos propõe percorrer uma casa de 

nossa infância e percebo que as lacunas da minha memória se tornam espaços físicos desse lugar 

que vivi até os 7 anos. Lembro do meu quarto inteiro, mas não da cama em que dormia. Abre-se ali 

um vazio real, concreto, de um espaço não habitado por um móvel que eu sei que existia. Esse vazio 

se desdobra na cama de meus pais, exatamente no momento em que tentando fugir do sono, botei 

a cabeça no ombro da minha mãe e perguntei se crianças morriam. Durante todo meu trajeto do 

quarto até a cozinha os objetos ausentes em minha memória se desdobram em situações e em 

novas imagens, initerruptamente. 

Ao final do exercício lembro do Didi-Huberman citando as ondas do mar e do fascínio da 

Janaina ao perceber a sucessão infinita de mortes que as imagens podem carregar.


TEXTO 2

Minha avó morreu no dia de seu nascimento, aos 80 anos. Foi também o dia da minha 

primeira estreia no teatro. Na noite anterior, ao falar com minha mãe pelo telefone, pedi que ela 

não me ligasse no dia seguinte porque queria ficar sozinha e disse que nos encontraríamos ao final 

do espetáculo . Não queria falar com ninguém; havia em mim um misto de ansiedade, medo e 

desânimo.  A peça foi terrível: esqueci texto, errei marcas, entrei com as calças abertas. Sentia-me 

oca, vazia, como se eu estivesse esgotada. Não saía uma lágrima ou riso. Ao final do espetáculo, 

muito chateada e solitariamente, corri para o hall de entrada do teatro, onde todos esperavam os 

atores. Meus olhos rapidamente buscaram a minha mãe, e quando ela se virou para me retribuir o 

olhar, sua expressão era de tanta pena em relação a mim, que eu entendi o que havia acontecido. O 

seu olhar, à distancia, silenciou qualquer enunciado, e me fez transbordar em lágrimas. Enquanto ela 

cruzava a sala para me abraçar, eu pensei que minha avó não poderia ter feito isso comigo naquele 

dia; era muito injusto. Senti ódio e imediatamente vergonha por odiar alguém que eu amava 

demais, no dia da sua morte. Porém, eu precisava e queria estar feliz, como todos deviam estar 

naquele salão.  A interposição entre a vida e a morte abriam em mim um buraco tão grande quanto 

o silêncio da minha mãe naqueles breves segundos. Ao tentar descer as estreitas escadas do lugar, 

uma mão me puxou de volta, pedindo uma fotografia. Alguém beijou meu rosto, eu esperei um 

clique e fui embora dali, onde me parece que já não estava desde o início.




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