sábado, 30 de abril de 2016

Encontros

                                                                                                 Eu respeito os acasos.   
Negar um encontro é negar a possibilidade de transformação.
                               Um acontecimento.
O espaço está vazio.                              Eles tinham dançado em cima da mesa. 
A música ainda é ouvida, mesmo sem ser tocada.       As coisas que realmente importam não são tocadas.

A presença dela ainda está no corredor. Eles estão no corredor, é possível ouvir. O mar verde. Os olhos. Fixados. Um brisa quente. Um vestido. O espaço é rasgado. Uma fenda. O tempo é outro. É aqui. O piano ainda está lá. As paredes estão aqui. Um beijo. 13 anos. Ele disse não. Ela disse tudo bem e deu o beijo. Tava escuro. Não. Ele tinha 10. Não. Tinha 12 anos. Não estava tão escuro. Ele disse não querendo dizer sim. A mão dela tava fria. O maxilar duro. A areia fofa. Ele nunca tinha dançado em cima da mesa. Isso é uma transformação. Ele respeita isso. É preciso respeitar os encontros. Os corpos. A superfície da pele. Ele se sentia livre. Seja lá o que livre for. Os corpos se tocavam mas não era possível tocar o que acontecia entre os corpos. A música...No espaço. Eles caminham pelo Arpoador. Não. Eles estão em um banheiro. Um quarto. Um quarto de hotel em Cuba. Eles estão aqui embaixo. No Braseiro. Estão almoçando. Eles poderiam estar aqui. O piano ainda está lá. As paredes estão ali. Que horas são?

domingo, 24 de abril de 2016

Primeiros textos com Fernando

Marcéu

Ninguém tinha me levado para a praia naquele dia. Pela manhã eles tinham me prometido, mas meu pai ficou enrolado arrumando o barco, e minha mãe dizia não ser capaz de me levar para surfar sozinha. Vendo a noite chegar, tive a certeza que não sentiria o sal colar no meu corpo. Peguei a prancha. Fechei a porta. E fui surfar.
Ondas grandes, pequenas, tubulares, meu colchão se transformava em uma variedade delas. Tomei um caldo. Caí. No chão, vi a quilha quebrada. Doeu. De repente, meu California Dream desabou e com ele minhas lágrimas. Frustação. – Brincadeira estúpida. A vergonha tomou conta de mim, e eu não consegui contar o que aconteceu. Disse que fui pegar a prancha em cima do beliche e ela caiu. Minha mãe resolveu facilmente. Colocou a culpa na Maria. – Onde já se viu guardar prancha lá em cima. A Casa Grande mandava, a Senzala obedecia.

Instantaneamente tive um alívio por não ser pego, porém a vergonha e a culpa estavam me esperando no travesseiro.   

domingo, 17 de abril de 2016

Primeiros textos com Fernando...

JANAINA

1 - Encontro. Carona. Café. Conversas sobre desdobramentos da memória, e possibilidades 

artísticas. “O que de mais belo, você já fez na vida?” Lembranças de casa. Nem sempre 

saber tudo de uma história é o mais importante. Sair do lugar conhecido, usual. Meu 

aniversário de 30 anos. ...“o luto põe o mundo em movimento”. Onde esse texto te toca 

pessoalmente? Pessoalmente...                        Um texto só cumpre seu papel, se 

estabelece algum diálogo com quem o lê. Se o leitor consegue estabelecer pontes de 

contato entre o texto e algo em si. Se é modificado. Se não é só um texto.  A linha tênue 

entre presente, passado e futuro. A sensação de que fazemos parte de algo além. Qual o 

nosso poder de escolha? Até onde podemos modificar o que nos está acontecendo agora? 

E todas as revoluções? Somos movidos pelas perdas?  Memória como lacuna. O que já não 

é. Que agora é mais vivo do que nunca. Quem nunca?



2 – Chão vermelho. Trancas na porta da sala. Banheira grande, no único banheiro. Chico 

Buarque na parede do corredor. A mão da Ana que eu segurava até adormecer. O quarto 

que eu dividi com minha mãe por alguns anos. O Gonzaguinha na vitrola. O batente da 

porta da cozinha sujo dos meus pés de menina que sabiam escalar. Rua Real Grandeza 

171, apt 602, ao lado da padaria Imperial. Mil folhas de doce de leite, quindim, frango 

assado na televisão de cachorros (como dizia a minha mãe) e pão quentinho quando eu 

chegava do ballet. Dos 4 aos 29. Ana Lúcia, que me colocava no banho, quando eu não 

queria tomar, que me dava batata frita escondido da minha mãe, que me dava a mão pra eu 

dormir, quando minha mãe ainda não tinha chegado do trabalho, minha mãe, que me amou, 

que me alimentou, me acalentou e aguentou a adolescente revoltada sozinha, que sempre 

esteve ali. A mulher mais forte do mundo. E meu pai. Dele lá, eu só lembro da minha 

ansiedade em esperá-lo chegar. Ah, e o Cristo. Um janelão com vista pro Cristo. Foi onde 

eu vivi quase tudo. Todos os meus inícios.


JULIA

1º texto (narrativo)

Eram 5 atores e um diretor. Eles, brasileiros. Ele, argentino. Dois cafés em dias anteriores 

haviam sido necessários para que quebrassem o gelo entre eles, para que se conhecessem 

um pouco. Essa seria então a terceira vez que se veriam, o terceiro encontro. Ele chegou 

de carona com uma das atrizes do grupo. Enquanto esperavam o café ficar pronto, 

ocuparam as cadeiras dispostas em torno da mesa e conversaram durante muito tempo. A 

harmonia entre eles era visível e a diferença de idioma, que talvez pudesse ser um 

problema, colaborou para que todos estivessem com a escuta ainda mais ativada naquela 

terça-feira. Pareceram realmente se reconhecer alí. Em um dado momento, fecharam os 

olhos e olharam pra dentro. O diretor dividiu o seu olhar entre os 5 atores, que continuavam 

olhando pra dentro. Depois discutiram desejos e definiram tarefas para um próximo 

encontro. Também tomaram café.


2º texto (1ª pessoa)

Quando ele nos pediu pra lembrar de uma casa da infância, eu escolhi a casa da minha vó. 

Um cheiro de bolo quentinho invadiu a minha cabeça. Tentei, talvez, pensar num outro 

cenário, num lugar um pouco mais recente pra mim, mas não consegui. Eu era invadida por 

gelatinas multi-coloridas com perfume de frutas que me lembravam aquelas balinhas da 

porta do colégio. Eu amava as balinhas da porta do colégio. Me deliciava com aquele 

guarda-chuva de chocolate que tinha cheiro de manteiga e que me lembrava tudo, menos 

chocolate. Na casa da minha vó, o chocolate era chocolate de verdade. E a bala de coco 

não tinha essência de baunilha como tinham as balas do colégio. Durante uma boa parte da 

minha adolescência eu usei colônia de baunilha, mas hoje prefiro os perfumes cítricos. Os 

doces me enjoam.


CAMILA

TEXTO 1

1º de março de 2016. 1º encontro com Fernando. 1ª vez em que nos permitimos ser o 

próprio objeto a ser pesquisado. 1ª vez em que nossos corpos teórico-práticos são apenas um. O 

corpo se faz presente a partir do pensamento. 

Fernando fala sobre espaços da cidade que estão escondidos, sobre os que não vemos ou 

escolhemos não ver. Eu me pergunto: como construo uma imagem? Qual espaço há para minha 

imaginação e para o que eu vejo ou deixo de ver? Ele nos pergunta qual memória esqueceria. Eu 

penso que nunca precisei de muito esforço para esquecer as coisas e que provavelmente eu passei 

por experiências que queria esquecer e de fato, esqueci. Mas esqueço das coisas que lembro e 

gostaria de esquecer. Nesse momento, me perco um pouco do grupo, pensando em mim, nas 

minhas lacunas entre lembranças. Não sei sobre o que falaram. Retorno quando Fernando nos 

pergunta qual memória gostaríamos de ter. Na sequência, ele nos propõe percorrer uma casa de 

nossa infância e percebo que as lacunas da minha memória se tornam espaços físicos desse lugar 

que vivi até os 7 anos. Lembro do meu quarto inteiro, mas não da cama em que dormia. Abre-se ali 

um vazio real, concreto, de um espaço não habitado por um móvel que eu sei que existia. Esse vazio 

se desdobra na cama de meus pais, exatamente no momento em que tentando fugir do sono, botei 

a cabeça no ombro da minha mãe e perguntei se crianças morriam. Durante todo meu trajeto do 

quarto até a cozinha os objetos ausentes em minha memória se desdobram em situações e em 

novas imagens, initerruptamente. 

Ao final do exercício lembro do Didi-Huberman citando as ondas do mar e do fascínio da 

Janaina ao perceber a sucessão infinita de mortes que as imagens podem carregar.


TEXTO 2

Minha avó morreu no dia de seu nascimento, aos 80 anos. Foi também o dia da minha 

primeira estreia no teatro. Na noite anterior, ao falar com minha mãe pelo telefone, pedi que ela 

não me ligasse no dia seguinte porque queria ficar sozinha e disse que nos encontraríamos ao final 

do espetáculo . Não queria falar com ninguém; havia em mim um misto de ansiedade, medo e 

desânimo.  A peça foi terrível: esqueci texto, errei marcas, entrei com as calças abertas. Sentia-me 

oca, vazia, como se eu estivesse esgotada. Não saía uma lágrima ou riso. Ao final do espetáculo, 

muito chateada e solitariamente, corri para o hall de entrada do teatro, onde todos esperavam os 

atores. Meus olhos rapidamente buscaram a minha mãe, e quando ela se virou para me retribuir o 

olhar, sua expressão era de tanta pena em relação a mim, que eu entendi o que havia acontecido. O 

seu olhar, à distancia, silenciou qualquer enunciado, e me fez transbordar em lágrimas. Enquanto ela 

cruzava a sala para me abraçar, eu pensei que minha avó não poderia ter feito isso comigo naquele 

dia; era muito injusto. Senti ódio e imediatamente vergonha por odiar alguém que eu amava 

demais, no dia da sua morte. Porém, eu precisava e queria estar feliz, como todos deviam estar 

naquele salão.  A interposição entre a vida e a morte abriam em mim um buraco tão grande quanto 

o silêncio da minha mãe naqueles breves segundos. Ao tentar descer as estreitas escadas do lugar, 

uma mão me puxou de volta, pedindo uma fotografia. Alguém beijou meu rosto, eu esperei um 

clique e fui embora dali, onde me parece que já não estava desde o início.




A Memória de Shakespeare (Borges)


A Memória de Shakespeare




 

Há devotos de Goethe, das Eddas e do tardio cantar dos Nibelungos; Shakespeare foi meu destino. Ainda é, mas de um modo que ninguém teria podido pressentir, salvo um único homem, Daniel Thorpe, que acaba de morrer em Pretória. Há outro cujo rosto nunca vi.

Sou Hermann Soergel. O curioso leitor talvez tenha folheado minha “Cronologia de Shakespeare”, que achei ser necessária certa vez à boa inteligência do texto e que foi traduzida para vários idiomas, inclusive o castelhano. Não é impossível que recorde também uma prolongada polêmica sobre certa emenda que Theobald intercalou em sua edição crítica de 1734 e que, desde essa data, é parte não discutida do cânone.
Hoje, surpreende-me o tom incivil daquelas quase alheias páginas. Por volta de 1914 redigi, e não entreguei à publicação, um estudo sobre as palavras compostas que o helenista e dramaturgo George Chapman forjou para suas versões homéricas e que retrocedem o inglês, sem que ele pudesse suspeitar disso, a sua origem (Urprung) anglo-saxônica. Nunca pensei que sua voz, que esqueci agora, ser-me-ia familiar… Alguma separata assinada com iniciais completas, creio, minha biografia literária. Não sei se é lícito acrescentar uma versão inédita de Macbeth, que realizei para não continuar pensando na morte de meu irmão Oito Julius, que caiu na frente ocidental em 1917. Não a concluí; compreendi que o inglês dispõe, para seu bem, de dois registros – o germânico e o latino –, enquanto nosso alemão, apesar de sua melhor música, deve limitar-se a um só.

Nomeei Daniel Thorpe. Apresentou-o a mim o major Barclay, em certo congresso shakespeariano. Não direi o lugar nem a data; sei muito bem que tais precisões são, na realidade, imprecisões. Mais importante que o rosto de Daniel Thorpe, que minha cegueira parcial me ajuda a esquecer, era sua notória infelicidade. Ao longo dos anos, um homem pode simular muitas coisas, mas não a felicidade. De modo quase físico, Daniel Thorpe exalava melancolia. Depois de uma longa sessão, a noite encontrou-nos em uma taverna qualquer. Para sentir-nos na Inglaterra (onde já estávamos), apuramos em rituais jarras de peltre, cerveja morna e negra.

– No Punjab – disse o major – mostraram-me um mendigo. Uma tradição do Islã atribui ao rei Salomão um anel que lhe permitia entender a língua dos pássaros. Era fama que o mendigo tinha em seu poder o anel. Seu valor era tão inestimável que nunca pôde vendê-lo e morreu em um dos pátios da mesquita de Wazil Khan, em Lahore. Pensei que Chaucer não desconhecesse a fábula do prodigioso anel, mas dizê-lo teria sido o mesmo que estragar a historieta de Barclay.

– E o anel? – perguntei.

– Perdeu-se, segundo o costume dos objetos mágicos.
Talvez esteja agora em algum esconderijo da mesquita ou na mão de um homem que viva em algum lugar onde faltem pássaros.

– Ou onde haja tantos – disse – que o que dizem se confunde.

– Sua história, Barclay, tem alguma coisa de parábola.

Foi então que Daniel Thorpe falou. Ele o fez de modo impessoal, sem olhar-nos. Pronunciava o inglês de modo peculiar, que atribuí a uma longa permanência no Oriente.

– Não é uma parábola – disse ele –, e, se o for, é verdade.
Há coisas de um valor tão inestimável que não podem ser vendidas. As palavras que tento reconstruir me impressionaram menos do que a convicção com que as disse Daniel Thorpe. Achamos que diria algo mais, mas de repente calou-se, como que arrependido. Barclay despediu-se. Juntos, nós dois voltamos ao hotel. Era muito tarde, mas Daniel Thorpe propôs-me que prosseguíssemos a conversa em seu quarto. Após algumas trivialidades, disse-me:

– Ofereço-lhe o anel do rei. É claro que se trata de uma metáfora, mas o que essa metáfora encobre não é menos prodigioso que o anel. Ofereço-lhe a memória de Shakespeare desde os dias mais pueris e antigos até os do início de abril de 1616. Não acertei em pronunciar uma palavra. Foi como se me oferecessem o mar. Thorpe continuou:

– Não sou um impostor. Não estou louco. Rogo-lhe que não julgue até depois de ouvir-me. O major deve ter-lhe dito que sou, ou era, médico militar. A história cabe em poucas palavras. Começa no Oriente, ao alvorecer, em um hospital de sangue. A data precisa não importa. Em suas últimas palavras, um soldado raso, Adam Clay, que havia sido atingido por duas descargas de fuzil, ofereceu-me, pouco antes do fim, a preciosa memória. A agonia e a febre são inventivas; aceitei a oferta sem dar-lhe crédito. Além disso, depois de uma ação de guerra, nada é muito estranho. Mal teve tempo de explicar-me as singulares condições do presente. O possuidor tem de oferecê-lo em voz alta e o outro, de aceitá-lo. Aquele que o oferece perde-o para sempre. O nome do soldado e a cena patética da entrega pareceram-me literários, no mau sentido da palavra.

Um pouco intimidado, perguntei-lhe:

– O senhor, agora, tem a memória de Shakespeare?

Thorpe respondeu:

– Tenho, ainda, duas memórias. A minha pessoal e a daquele Shakespeare que parcialmente sou. Ou melhor, duas memórias me têm. Há uma zona em que se confundem. Há um rosto de mulher que não sei a que século atribuir.

Perguntei-lhe então:

– O que fez o senhor com a memória de Shakespeare?

Houve um silêncio. Depois disse:

– Escrevi uma biografia romanceada que mereceu o desdém da crítica e algum sucesso comercial nos Estados Unidos e nas colônias. Acho que é tudo. Preveni-o de que meu presente não é uma sinecura. Continuo à espera de sua resposta.

Fiquei pensando. Não havia consagrado minha vida, não menos incolor que estranha, à busca de Shakespeare? Não seria justo que no fim da jornada eu desse com ele?

Disse, articulando bem cada palavra:

– Aceito a memória de Shakespeare.

Algo, sem dúvida, aconteceu, mas não percebi.

Apenas um princípio de fadiga, talvez imaginária.

Lembro claramente que Thorpe me disse:

– A memória já entrou em sua consciência, mas é preciso descobri-la. Surgirá nos sonhos, na vigília, ao virar as folhas de um livro ou ao dobrar uma esquina. O senhor não se impaciente, não invente lembranças. O acaso pode favorecê-lo ou atrasá-lo, segundo seu misterioso modo. À medida que eu vá esquecendo, o senhor recordará. Não lhe prometo um prazo.

O que sobrava da noite foi dedicado a discutir o caráter de Shylock. Abstive-me de indagar se Shakespeare havia tido contato pessoal com judeus. Não quis que Thorpe imaginasse que eu o submetia a uma prova. Comprovei, não sei se com alívio ou com inquietação, que suas opiniões eram tão acadêmicas e tão convencionais como as minhas.

Apesar da vigília anterior, quase não dormi na noite seguinte. Descobri, como em outras tantas ocasiões, que eu era um covarde. Pelo temor de ser defraudado, não me entreguei à generosa esperança. Quis pensar que era ilusório o presente de Thorpe. Irresistivelmente, a esperança prevaleceu. Shakespeare seria meu, como ninguém foi de ninguém, nem no amor, nem na amizade, nem sequer no ódio. De algum modo eu seria Shakespeare. Não escreveria as tragédias nem os intrincados sonetos, mas recordaria o instante em que me foram reveladas as bruxas, que também são as parcas, e aquele outro em que me foram dadas as vastas linhas:

 

And shake the yoke of inauspicious stars
From this worldweary flesh.

 

Lembraria Anne Hathaway como lembro aquela mulher, já madura, que me ensinou o amor em um apartamento de Lübeck, há tantos anos. (Tentei recordá-la e só pude recuperar o papel de parede, que era amarelo, e a claridade que vinha da janela. Esse primeiro fracasso deveria antecipar-me os demais).

Eu havia postulado que as imagens da prodigiosa memória seriam, antes de mais nada, visuais. Não foi o que aconteceu. Dias depois, ao barbear-me, pronunciei ante o espelho algumas palavras que me surpreenderam e que pertenciam, como um colega me assinalou, ao A, B, C de Chaucer. Uma tarde, ao sair do Museu Britânico, assobiei uma melodia muito simples que nunca ouvira.

Já terá o leitor percebido o traço comum dessas primeiras revelações de uma memória que era, apesar do esplendor de algumas metáforas, bem mais auditiva do que visual. De Quincey afirma que o cérebro do homem é um palimpsesto. Cada nova escrita encobre a escrita anterior e é encoberta pela seguinte, mas a todo-poderosa memória pode exumar qualquer impressão, por mais momentânea que tenha sido, se lhe derem o suficiente estímulo. A julgar por seu testamento, não havia um único livro, nem sequer a Bíblia, na casa de Shakespeare, mas ninguém ignora as obras que freqüentou. Chaucer, Gower, Spenser, Christopher Marlowe, a Crônica de Holinshed, o Montaigne de Florio, o Plutarco de North. Eu possuía de maneira latente a memória de Shakespeare; a leitura, quer dizer, a releitura desses velhos volumes seria o estímulo que procurava. Reli também os sonetos, que são sua obra mais imediata. Em algum momento encontrei a explicação ou várias explicações. Os bons versos impõem a leitura em voz alta; depois de alguns dias recuperei sem esforço os erres ásperos e as vogais abertas do século XVI.

Escrevi na Zeitschrift für germanische Philologie que o soneto 127 referia-se à memorável derrota da Armada Invencível. Não lembrei que Samuel Butler, em 1899, já havia formulado essa tese. Uma visita a Stratford-on-Avon foi, previsivelmente, estéril. Depois ocorreu a transformação gradual de meus sonhos. Não me foram oferecidos, como a De Quincey, pesadelos esplêndidos nem piedosas visões alegóricas, à maneira de seu mestre, Jean Paul. Rostos e quartos desconhecidos adentraram minhas noites. O primeiro rosto que identifiquei foi o de Chapman; depois, o de Ben Jonson e o de um vizinho do poeta, que não consta nas biografias, mas que Shakespeare veria com freqüência.

Quem adquire uma enciclopédia não adquire cada linha, cada parágrafo, cada página e cada gravura; adquire a mera possibilidade de conhecer algumas dessas coisas. Se isso acontece com um ente concreto e relativamente simples, tendo em vista a ordem alfabética das partes, o que não acontecerá com um ente abstrato e variável, ondoyant et divers, como a mágica memória de um morto?

A ninguém é dado abarcar em um único instante a plenitude de seu passado. Nem a Shakespeare, que eu saiba, nem a mim, que fui seu parcial herdeiro, ofereceram esse dom. A memória do homem não é uma soma; é uma desordem de possibilidades indefinidas. Santo Agostinho, se não me engano, fala dos palácios e cavernas da memória. A segunda metáfora é a mais justa. Foi nessas cavernas que entrei. Tal como a nossa, a memória de Shakespeare incluía zonas, grandes zonas de sombra repelidas voluntariamente por ele. Não sem algum escândalo lembrei que Ben Jonson fazia-lhe recitar hexâmetros latinos e gregos e que o ouvido, o
incomparável ouvido de Shakespeare, costumava errar uma quantidade deles, em meio às risadas dos colegas.

Conheci estados de felicidade e de sombra que transcendem a comum experiência humana. Sem que eu soubesse, a longa e estudiosa solidão havia-me preparado para a dócil recepção do milagre. Depois de uns trinta dias, a memória do morto animava-me. Durante uma semana de curiosa felicidade, quase acreditei ser Shakespeare. A obra renovou-se para mim. Sei que a lua, para Shakespeare, era menos a lua que Diana e menos Diana que essa obscura palavra que se demora: moon. Anotei outra descoberta. As aparentes negligências de Shakespeare, essas absence dans l’infini de que apologeticamente fala Hugo, foram deliberadas. Shakespeare tolerou-as, ou as intercalou, para que seu discurso, destinado à cena, parecesse espontâneo, nem burilado nem artificial demais (nicht allzu glatt und gekünstelt). Essa mesma razão levou-o a misturar suas metáforas.

 

My way of life

Is fall´n into the sear, the yellow leaf.

 

Certa manhã discerni uma culpa no fundo de sua memória, Não procurei defini-la; Shakespeare o fez para sempre. Para mim, basta declarar que essa culpa nada tinha em comum com a perversão. Compreendi que as três faculdades da alma humana, memória, entendimento e vontade, não são uma ficção escolástica. A memória de Shakespeare não podia revelar-me outra coisa que as circunstâncias de Shakespeare. É evidente que estas não constituem a singularidade do poeta; o que importa é a obra que executou com esse material inconsistente.

Ingenuamente, eu havia premeditado, como Thorpe, uma biografia. Não demorei em descobrir que esse gênero Literário requer condições de escritor que por certo não são minhas. Não sei narrar. Não sei narrar minha própria história, que é bem mais extraordinária que a de Shakespeare. Além do mais, esse livro seria inútil. O acaso ou o destino deram a Shakespeare as triviais coisas terríveis que todo homem conhece; ele soube transmutá-las em fábulas, em personagens muito mais vividos que o homem cinza que sonhou com eles, em versos que as gerações não deixarão desaparecer, em música verbal. Para que destecer essa rede, para que minar a torre, para que reduzir às módicas proporções de uma biografia documental ou de um romance realista o som e a fúria de Macbeth?

Goethe constitui, segundo se sabe, o culto oficial da Alemanha; mais íntimo é o culto a Shakespeare, que professamos com nostalgia. (Na Inglaterra, Shakespeare, que tão distante está dos ingleses, constitui o culto oficial; o livro da Inglaterra é a Bíblia). Na primeira etapa da aventura senti a felicidade de ser Shakespeare; na última, a opressão e o terror. No início, as duas memórias não misturavam suas águas. Com o tempo, o grande rio de Shakespeare ameaçou, e quase afogou, meu modesto caudal. Percebi com temor que estava esquecendo a língua de meus pais. Já que a identidade pessoal baseia-se na memória, temi por minha razão.

Meus amigos vinham visitar-me; assombrou-me que não percebessem que eu estava no inferno. Comecei a não entender as coisas cotidianas que me rodeavam (díe alltägliche Umwelt). 1 Certa manhã perdi-me entre grandes formas de ferro, de madeira e de cristal. Aturdiram- me assobios e clamores. Demorei um instante, que pôde parecer-me infinito, em reconhecer as máquinas e vagões da estação de Brêmen. À medida que transcorrem os anos, todo homem é obrigado a suportar o crescente peso de sua memória. Duas me angustiavam, confundindo-se às vezes: a minha e a do outro, incomunicável.

Todas as coisas querem perseverar em seu ser, escreveu Spinoza. A pedra quer ser uma pedra, o tigre, um tigre, eu queria voltar a ser Hermann Soergel. Esqueci a data em que decidi libertar-me. Dei com o método mais fácil. No telefone marquei números ao acaso. Vozes de criança ou de mulher respondiam. Achei que meu dever era respeitá-las. Dei por fim com uma voz culta de homem. Disse-lhe:

– Você quer a memória de Shakespeare? Sei que o que lhe ofereço é muito sério. Pense bem.

Uma voz incrédula replicou:

– Enfrentarei esse risco. Aceito a memória de Shakespeare.

Declarei as condições da dádiva. Paradoxalmente, sentia ao mesmo tempo a nostalgia do livro que eu deveria ter escrito e que me foi proibido escrever e o temor de que o hóspede, o espectro, nunca me deixasse.

Desliguei o telefone e repeti como uma esperança estas resignadas palavras:

Simply the thing I am shall make me live.

Eu havia imaginado disciplinas para despertar a antiga memória; tive de buscar outras para apagá-la. Uma entre tantas foi o estudo da mitologia de William Blake, discípulo rebelde de Swedenborg. Comprovei que era menos complexa do que complicada.

Esse e outros caminhos foram inúteis; todos levavam-me a Shakespeare.

Encontrei, enfim, a única solução para povoar a espera: a estrita e vasta música, Bach. PS. 1924 – Já sou um homem entre os homens. Na vigília sou o professor emérito Hermann Soergel; manuseio um fichário e redijo trivialidades eruditas, mas na aurora sei, algumas vezes, que aquele que sonha é o outro. De vez em quando, surpreendem-me pequenas e fugazes memórias que talvez sejam autênticas.

Funes, o memorioso (Borges)

Funes, o Memorioso

Jorge Luis Borges


Recordo-o (não tenho o direito de pronunciar esse verbo sagrado, apenas um homem na terra teve o direito e tal homem está morto) com uma obscura passiflórea na mão, vendo-a como ninguém jamais a vira, ainda que a contemplasse do crepúsculo do dia até o da noite, uma vida inteira. Recordo-o, o rosto taciturno e indianizado e singularmente remoto, por trás do cigarro. Recordo (creio) suas mãos delicadas de trançador. Recordo próximo dessas mãos um mate, com as armas da Banda Oriental, recordo na janela da casa uma esteira amarela, com uma vaga paisagem lacustre. Recordo claramente a sua voz; a voz pausada, ressentida e nasal de orillero antigo, sem os assobios italianos de agora. Mais de três vezes não o vi; a última, em 1887... Parece-me muito feliz o projeto de que todos aqueles que o conheceram escrevam sobre ele; meu testemunho será por certo o mais breve e sem dúvida o mais pobre, porém não o menos imparcial do volume que vós editareis. A minha deplorável condição de argentino impedir-me-á de incorrer no ditirambo - gênero obrigatório no Uruguai; quando o tema é um uruguaio. Literato, cajetilla, porteño. Funes não disse essas palavras injuriosas, mas de um modo suficiente me consta que eu representava para ele tais desventuras. Pedro Leandro Ipuche escreveu que Funes era um precursor dos super-homens; "Um Zaratustra cimarrón e vernáculo"; não o discuto, mas não se deve esquecer que era também natural de Fray Bentos, com certas limitações incuráveis.
A minha primeira lembrança de Funes é muito clara. Vejo-o em um entardecer de Março ou Fevereiro do ano de 1884. Meu pai, nesse ano, levara-me a veranear em Fray Bentos. Voltava com meu primo Bernardo Haedo da estância de San Francisco. Voltávamos cantando, a cavalo, e essa não era a única circunstância da minha felicidade. Após um dia abafado, uma enorme tempestade cor cinza escura havia escondido o céu. Alentava-me o vento Sul, já enlouqueciam-se as árvores; eu tinha o temor (a esperança) de que nos surpreenderia em um descampado a água elemental. Apostamos uma espécie de corrida com a tempestade. Entramos em um desfiladeiro que se aprofundava entre duas veredas altíssimas de tijolo. Escurecera repentinamente; ouvi passos rápidos e quase secretos no alto; levantei os olhos e vi um rapaz que corria pela vereda estreita e esburacada como que por uma parede estreita e esburacada. Recordo a bombacha, as alpargatas, recordo o cigarro no rosto duro, contra a densa nuvem já sem limites. Bernardo gritou-lhe imprevisivelmente: Que horas são, Ireneo? Sem consultar o céu, sem deter-se, o outro respondeu: Faltam quatro minutos para as oito, jovem Bernardo Juan Francisco. A voz era aguda, zombeteira.
Sou tão distraído que o diálogo a que acabo de me referir não teria chamado a minha atenção se não o tivesse enfatizado o meu primo, a quem estimulavam (creio) certo orgulho local, e o desejo de mostrar-se indiferente à réplica tripartite do outro.
Disse-me que o rapaz do desfiladeiro era um tal Ireneo Funes, conhecido por algumas peculiaridades como a de não se dar com ninguém e a de saber sempre a hora, como um relógio. Complementou dizendo que era filho de uma passadeira do povo, Maria Clementina Funes, e que alguns diziam que seu pai era um médico de saladeiro, um inglês O'Connor, e outros um domador ou rastreador do departamento de Salto. Vivia com a sua mãe, na curva da quinta dos Laureles.
Nos anos de 1885 e 1886 veraneamos na cidade de Montevideo. Em 1887 voltei a Fray Bentos. Perguntei, como é natural, por todos os conhecidos e, finalmente, pelo "cronométrico Funes". Responderam-me que um redomão o havia derrubado na estância de San Francisco, e que havia se tornado paralítico, sem esperança. Recordo a sensação de incômoda magia que a notícia despertou-me: a única vez que eu o vi, vínhamos a cavalo de São Francisco e ele andava em um lugar alto; o fato, na boca do meu primo Bernardo, tinha muito de sonho elaborado com elementos anteriores. Disseram-me que não se movia da cama, os olhos repousados na figueira do fundo ou em uma teia de aranha. Ao entardecer, permitia que o levassem para perto da janela. Levava a arrogância ao ponto de simular que era benéfico o golpe que o havia fulminado... Duas vezes o vi atrás da relha, que toscamente enfatizava a sua condição de eterno prisioneiro; uma, imóvel, com os olhos cerrados; outra, imóvel também, absorto na contemplação de um aromático galho de santonina.
Não sem um certo orgulho havia iniciado naquele tempo o estudo metódico do latim. A minha mala incluía o De viris illustribus de Lhamond, o Thesaurus de Quicherat, os comentários de Júlio César e um volume ímpar da Naturalis historia de Plínio, que excedia (e continua excedendo) as minhas modestas virtudes de latinista. Tudo se propaga em um povoado; Ireneo, em seu rancho das orillas, não tardou em enteirar-se da chegada desses livros anômalos. Dirigiu-me uma carta florida e cerimoniosa, na qual recordava no encontro, desditosamente fugaz, "do dia 7 de Fevereiro de 1884", ponderava os gloriosos serviços que Don Gregorio Haedo, meu tio, falecido nesse mesmo ano, "havia prestado às duas pátrias na valorosa jornada de Ituzaingó", e me solicitava o empréstimo de qualquer dos volumes, acompanhado de um dicionário "para a boa intelecção do texto original, pois todavia ignoro o latim". Prometia devolvê-los em bom estado, quase imediatamente. A letra era perfeita, muito perfilada; a ortografia, do tipo que Andrés Bello preconizou: i por y, j por g. A princípio, suspeitei naturalmente tratar-se de uma zombaria. Meus primos asseguraram que não, que eram coisas de Ireneo. Não sabia se atribuía ao atrevimento, à ignorância ou à estupidez a idéia de que o árduo latim não requeresse mais instrumento do que um dicionário; para desencorajá-lo completamente enviei-lhe o Gradus ad parnassum de Quicherat e a obra de Plínio.
No dia 14 de Fevereiro telegrafaram-me de Buenos Aires que voltasse imediatamente, pois meu pai não estava "nada bem". Deus me perdôe; o prestígio de ser o destinatário de um telegrama urgente, o desejo de comunicar a toda Fray Bentos a contradição entre a forma negativa da notícia e o peremptório advérbio, a tentação de dramatizar a minha dor, fingindo um estoicismo viril, talvez distraíram-me de toda a possibilidade de dor. Ao fazer a mala, notei que me faltavam o Gradus e o primeiro tomo da Naturalis historia. O "Saturno" sarpava no dia seguinte, pela manhã; essa noite, depois da janta, dirigi-me à casa de Funes. Assombrou-me que a noite fora não menos pesada que o dia.
No humilde rancho, a mãe de Funes recebeu-me.
Disse-me que Ireneo estava no quarto dos fundos e que não me estranhasse encontrá-lo às escuras, pois Ireneo preferia passar as horas mortas sem acender a vela. Atrevessei o pátio de lajota, o pequeno corredor; cheguei ao segundo pátio. Havia uma parreira; a escuridão pareceu-me total. Ouvi prontamente a voz alta e zombeteira de Ireneo. Essa voz falava em latim; essa voz (que vinha das trevas) articulava com moroso deleite um discurso, ou prece, ou encantamento. Ressoavam as sílabas romanas no pátio de terra; o meu temor as tomava por indecifráveis, intermináveis; depois, no enorme diálogo dessa noite, soube que formavam o primeiro parágrafo do 24º capítulo do 7º livro da Naturalis historia. O tema desse capítulo é a memória: as últimas palavras foram ut nihil non iisdem verbis redderetur auditum.
Sem a menor mudança de voz, Ireneo disse-me o que se passara. Estava na cama, funmando. Parece-me que não vi o seu rosto até a aurora; creio lembrar-me da brasa momentânea do cigarro. O quarto exalava um vago odor de umidade. Sentei-me, repeti a história do telegrama e da enfermidade de meu pai.
Chego, agora, ao ponto mais difícil do meu relato. Este (é bem verdade que já o sabe o leitor) não tem outro argumento senão esse diálogo de há já meio século. Não tratarei de reproduzir as suas palavras, irrecuperáveis agora. Prefiro resumir com veracidade as muitas coisas que me disse Ireneo. O estilo indireto é remoto e débil; eu sei que sacrifico a eficácia do meu relato; que os meus leitores imaginem os períodos entrecortados que me abrumaram essa noite.
Ireneo começou por enumerar, em latim e espanhol, os casos de memória prodigiosa registrados pela Naturalis historia: Ciro, rei dos persas, que sabia chamar pelo nome todos os soldados de seus exércitos; Metríadates e Eupator, que administrava a justiça dos 22 idiomas de seu império; Simónides, inventor da mnemotecnia; Metrodoro, que professava a arte de repetir com fidelidade o escutado de uma só vez. Com evidente boa fé maravilhou-se de que tais casos maravilharam. Disse-me que antes daquela tarde chuvosa em que o azulego o derrubou, ele havia sido o que são todos os cristãos; um cego, um surdo, um tolo, um desmemoriado. (Tratei de recordar-lhe a percepção exata do tempo, a sua memória de nomes próprios; não me fez caso.) Dezenove anos havia vivido como quem sonha: olhava sem ver, ouvia sem ouvir, esquecia-se de tudo, de quase tudo. Ao cair, perdeu o conhecimento; quando o recobrou, o presente era quase intolerável de tão rico e tão nítido, e também as memórias mais antigas e mais triviais. Pouco depois averiguou que estava paralítico. Fato pouco o interessou. Pensou (sentiu) que a imobilidade era um preço mínimo. Agora a sua percepção e sua memória eram infalíveis.
Num rápido olhar, nós percebemos três taças em uma mesa; Funes, todos os brotos e cachos e frutas que se encontravam em uma parreira. Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer de trinta de abril de 1882 e podia compará-los na lembrança às dobras de um livro em pasta espanhola que só havia olhado uma vez e às linhas da espuma que um remo levantou no Rio Negro na véspera da ação de Quebrado. Essas lembranças não eram simples; cada imagem visual estava ligada a sensações musculares, térmicas, etc. Podia reconstruir todos os sonhos, todos os entresonhos. Duas ou três vezes havia reconstruído um dia inteiro, não havia jamais duvidado, mas cada reconstrução havia requerido um dia inteiro. Disse-me: Mais lembranças tenho eu do que todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo. E também: Meus sonhos são como a vossa vigília. E também, até a aurora; Minha memória, senhor, é como depósito de lixo. Uma circunferência em um quadro-negro, um triângulo retângulo; um losango, são formas que podemos intuir plenamente; o mesmo se passava a Ireneo com as tempestuosas crinas de um potro, com uma ponta de gado em um coxilha, com o fogo mutante e com a cinza inumerável, com as muitas faces de um morto em um grande velório. Não sei quantas estrelas via no céu.
Essas coisas me disse; nem então nem depois coloquei-as em dúvida. Naquele tempo não havia cinematógrafos nem fonógrafos; é, no entanto, verossímil e até incrível que ninguém fizera um experimento com Funes. O cérto é que vivemos postergando todo o postergável; talvez todos saibamos pronfundamente que somos imortais e que mais cedo ou mais tarde, todo homem fará todas as coisas e saberá tudo.
A voz de Funes, vinda da escuridão, seguia falando.
Disse-me que em 1886 havia elaborado um sistema original de numeração e que em muito poucos dias havia ultrapassado vinte e quatro mil. Não o havia escrito, porque o pensado uma só vez já não podia desvanecer-lhe. Seu primeiro estímulo, creio, foi o descontentamento de que os trinta e três uruguaios requeressem dois signos e três palavras, em lugar de uma só palavra e um só signo. Aplicou logo esse desparatado princípio aos outros números. Em lugar de sete mil e treze, dizia (por exemplo) Máximo Pérez; em lugar de sete mil e catorze, A Ferrovia; outros números eram Luis Melián Lafinur, Olivar, enxofre, os rústicos, a baleia, o gás, a caldeira, Napoleão, Agustín de Vedia. Em lugar de quinhentos, dizia nove. Cada palavra tinha um signo particular, uma espécie de marca; as últimas eram muito complicadas... Eu tratei de explicar-lhe que essa rapsódia de vozes desconexas era precisamente o contrário de um sistema de numeração. Eu lhe observei que dizer 365 era dizer três centenas, seis dezenas, cinco unidades; análise que não existe nos "números". O Negro Timoteo a manta de carne. Funes não me entendeu ou não quis me entender.
Locke, no século XVII, postulou (ou reprovou) um idioma impossível no qual cada coisa individual, cada pedra, cada pássaro e cada ramo tivesse um nome próprio; Funes projetou alguma vez um idioma análogo, mas o desejou por parecer-lhe demasiado geral, demasiado ambígüo. De fato, Funes não apenas recordava cada folha de cada árvore de cada monte, mas também cada uma das vezes que a havia percebido ou imaginado. Resolveu reduzir cada uma de suas jornadas pretéritas a umas setenta mil lembranças, que definiria logo por cifras. Dissuadiram-no duas considerações: a consciência de que a tarefa era interminável, a consciência de que era inútil. Pensou que na hora da morte não havia acabo ainda de classificar todas as lembranças da infância.
Os dois projetos que foi indicado (um vocabulário infinito para a série natural dos números, um inútil catálogo mental de todas as imagens da lembrança) são insensatos, mas revelam certa balbuciante grandeza. Nos deixam vislumbrar ou inferir o vertiginoso mundo de Funes. Este, não o esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não apenas lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abarcava tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; perturbava-lhe que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quatro (visto de frente). Sua própria face no espelho, suas próprias mãos, surpreendiam-no cada vez. Comenta Swift que o imperador de Lilliput discernia o movimento do ponteiro dos minutos; Funes discernia continuamente os avanços tranqüilos da corrupção, das cáries, da fatiga. Notava os progressos da morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intolerantemente preciso. Babilônia, Londres e Nova York têm preenchido com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém, em suas torres populosas ou em suas avenidas urgentes, sentira o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sobre o infeliz Ireneo, em seu pobre subúrbio sulamericano. Era-llhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas na cama, na sombra, figurava a si mesmo cada rachadura e cada moldura das casas distintas que o redoavam. (Repito que o menos importante das suas lembranças era mais minucioso e mais vivo que nossa percepção de um gozo físico ou de um tormento físico). Em direção ao leste, em um trecho não pavimentado, havia casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava negras, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção virava o rosto para dormir. Também era seu costume imaginar-se no fundo do rio, mexido e anulado pela corrente.
Havia aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito, contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos.
A receosa claridade da madrugada entrou pelo pátio de terra.
Então vi a face da voz que toda a noite havia falado. Ireneo tinha dezenove anos; havia nascido em 1868; pareceu-me tão monumental como o bronze, mais antigo que o Egito, anterior às profecias e às pirâmides. Pensei que cada uma das minhas palavras (que cada um dos meus gestos) perduraria em sua implacável memória; entorpeceu-me o temor de multiplicar trejeitos inúteis.
Ireneo Funes morreu em 1889, de uma congestão pulmonar.



Burnt Norton


Burnt Norton
                         I

O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavres ecoam
Assim, no teu espirito.
                                Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
                         Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisiveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, reflectidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente.. contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.

                    II

Alhos e safiras na lama
Coagulam o eixo fixo.
O arame que vibra no sangue
Canta sob inventeradas cicatrizes
Apaziguando guerras há muito esquecidas.
A dança ao longo da artéria
A circulação da linfa
Estão representadas no rumo dos astros
Elevam-se ao verão na árvore 
Nós movemo-nos acima da árvore em movimento 
Na luz sobre a folha imaginada 
E ouvimos no solo molhado
Lá em baixo, o cão de caça e o javali 
Prosseguirem o seu ciclo como antes 
Mas reconciliados no meio dos astros.



No ponto morto do mundo em rotação. Nem came nem
        espírito;
Nem de nem para; no ponto morto, aí está a dança,
Mas nem paragem nem movimento. E não se chame a isso
        fixidez,
Onde o passado e o futuro se reúnem. Nem movimento de
         nem para,
Nem ascensâo nem declínio. Se não fosse o ponto, o ponto
         morto,
Não haveria dança, e há só a dança.
Eu apenas posso dizer, estivemos ali: mas não posso dizer onde.
E não posso dizer por quanto tempo, pois seria situar isso no tempo.
A liberdade interior do desejo prático,
A libertação de acção e sofrimento, libertação da compulsão
Interior e exterior, e no entanto tendo à volta
Uma graça de sentido, uma luz branca em repouso e em movimento,
Erhebung sem movimento, concentração
Sem eliminação, ao mesmo tempo um novo mundo
E o velho tomado explícito, compreendida
No remate do seu êxtase parcial
A resolução do seu horror parcial.
Todavia o encadeamento de passado e futuro
Tecido na fraqueza do corpo em mutação
Protege a humanidade do céu e da danação
Que a carne não pode suportar.
                                     O tempo passado e o tempo futuro
Apenas concedem um pouco de consciência.
Estar consciente é não estar no tempo
Mas apenas no tempo podem o momento no roseiral,
O momento no caramanchel onde a chuva batia,
O momento na igreja desabrigada ao entardecer
Ser lembrados; envolvidos em passado e futuro.
Apenas pelo tempo o tempo é conquistado.

                    III

Este é um lugar de desafeição
O tempo antes e o tempo depois
Numa luz sombria: nem luz do dia
Investindo a forma de lúcida quietude
Transformando a sombra em efémera beleza
Com vagarosa rotação sugerindo permanência
Nem escuridão para purificar a alma
Esvaziando o sensual pela privação
Purificando a afeição do temporal.
Nem plenitude nem vazio. Apenas um tremeluzir
Sobre os rostos tensos devastados pelo tempo
Distraídos da distracção pela dístracção
Cheios de fantasias e vazios de sentido
Túmida apatia sem concentração
Homens e pedaços de papel remolnhando no vento frio
Que sopra antes e depois do tempo,
Vento que entra e sai de pulmões viciados 
Tempo antes e tempo depois.
Eructação de almas doentias
No ar desbotado, os miasmas
Levados no vento que varre os sombrios montes de Londres,
Hampstead e Clerkenwell, Campden e Putney,
Hihgate, Primrose e Ludgate. Não aqui
Não aqui a escuridão, neste mundo de agitadas vozes.

Desce mais, desce apenas
Ao mundo da solidão perpétua,
Mundo não mundo, mas aquilo que não é mundo,
Escuridão interna, privação
E destituição de toda a propriedade,
Dissecação do mundo do sentido,
Evacuação do mundo da fantasia,
Inoperância do mundo do espírito;
Estee é um dos caminhos, e o outro
É o mesmo, não em movimento
Mas abstenção de movimento; enquanto o mundo se move
Em apetência, nos seus caminhos metalizados
Do tempo passado e do tempo futuro.

                      IV

O tempo e o sino enterraram o dia,
A nuvem negra arrebata o sol.
Irá voltar-se para nós o girassol, a clematite
Desprender-se, debruçar-se; irão a gavinha e a vergôntea
Unir-se e aderir?
Os frígidos
Dedos do teixo descerão
Para nos envolver? Depois da asa do alcião
Ter respondido à luz com a luz e calar-se, a luz está em repouso
No ponto morto do mundo em rotação.

                       V

As palavras movem-se, a música move-se
Apenas no tempo; mas o que apenas vive
Apenas pode morrer. As palavras, depois de ditas,
Alcançam o silêncio. Apenas pela forma, pelo molde,
Podem as palavras ou a música alcançar
O repouso, tal como uma jarra chinesa ainda
Se move perpetuamente no seu repouso.
Não o repouso do violino, enquanto a nota dura,
Não isso apenas, mas a coexistência,
Ou digamos que o fim precede o princípio,
E que o fim e o princípio estiveram sempre ali
Antes do princípio e depois do fim.
E tudo é sempre agora. As palavras deformam-se,
Estalam e quebram-se por vezes, sob o fardo,
Sob a tensão, escorregam, deslizam, perecem,
Definham com imprecisão, não se mantêm,
Não ficam em repouso. Vozes estridentes
Ralhando, troçando, ou apenas tagarelando,
Assaltam-nas sempre. O Verbo no deserto
É muito atacado por vozes de tentação,
A sombra que chora na dança funérea,
O clamoroso lamento da quimera desconsolada.

O detalhe do molde é movimento,
Como na figura dos dez degraus.
O próprio desejo é movimento
Não desejável em si;
O próprio amor é inamovível,
Apenas a causa e o fim do movimento,
Intemporal, e sem desejo
Excepto no aspecto do tempo
Capturado sob a fonna de limitação
Entre o não ser e o ser.
De repente num raio de sol
Mesmo enquanto se move a poeira
Eleva-se o riso escondido
De crianças na folhagem
Depressa, aqui, agora, sempre-
Ridículo o triste tempo inútil
Que se estende antes e depois.



T.S. Elliot
Quatro Quartetos
Tradução de Maria Amélia Neto
3ª edição
EDIÇÕES ÁTICA
1983




sábado, 16 de abril de 2016

Fungos




os móveis estão sendo engolidos ao sabor das elevações da maré, uma casa se afunda num solo arenoso, é atravessada por uma lâmina que a corta ao meio, fere seu interior. a casa sangra e derrama seu material, lustre, cadeira, mesa, gato. derrete como um sorvete, mancha o estofado. entra luz pela janela que se refrata por todo o ambiente interno em cacos espectrais de tonalidades variáveis de laranja, que desenham formas geométricas 
sem nome.
existe um bloco que é uma sala. um banheiro é um tampo de mármore. é uma saboneteira na qual nada uma família de baleias de plástico. a cortina do box cola na nossa perna enquanto a gente toma banho. o banheiro é um adesivo pele-água. o papel-higiénico já está quase no fim. o espelho é um quadro de Sarah Bernhardt e as rosas que se encontram ao seu pé são flores de vidro na qual eu sempre vi um rosto invadindo a minha
intimidade. 
a cozinha é o local mais à sombra de toda a casa, de onde a geladeira grita obsolescência, o fogão e a máquina de lavar apodrecem e os azulejos não ficam satisfeitos com a sua forma, mudam sua cor, deslocam figuras no
espaço. 
o recorte dos cômodos é de vidro fumê
a casa é um
buraco.





"o tempo existiu esse tempo todo. não dá pra matar o tempo com o seu coração. tudo toma tempo.” eu li essas palavras em alguma parte do globo, de pé em algum corredor, ou sentado numa poltrona confortável. eu acredito que eu estava num ônibus, mas eu poderia estar na margem de uma piscina, ou deitado de barriga virada pra baixo na minha cama balançando as minhas pernas pra lá e para cá. eu posso ter lido isso numa viagem ou quando eu estava esperando pra ser atendido no dentista. eu posso ter imaginado um urso quando eu li essas palavras escritas no livro, eu posso ter atendido o celular entre as frases, ou eu posso ter me demorado nelas durante 34 minutos ininterruptos. eu posso ter comido brócolis logo após a leitura dessas 3 orações. talvez eu tenha me masturbado algumas horas antes de passar os olhos por ela, talvez eu tenha cruzado com uma moça divorciada nesse mesmo dia na rua. eu devo ter matado alguns insetos nesse dia e provavelmente eu dei alguma risada que eu logo me arrependi de ter dado num período próximo a leitura desse texto que grifei. “a água só é macia quando estamos dentro dela”. eu posso ter imaginado que eu li isso. 





(Pedro)
 (As Imagens são da série "Fungos" de Nuno Ramos)




Ruína

A arquitetura ainda está lá. Tijolo sobre tijolo. Vazio. A luz entra, o jardim continua a crescer. Quarto. Vazio. A chave dourada abre um espaço que começa a ser preenchido por uma bola que rola. Ele está lá. De volta. Às voltas com a bola, ele sente o frio do azulejo. O tempo é entre. Suspenso. Aqui e lá é um só. Como um cego que nunca absorveu qualquer imagem a partir dos olhos, ele (re)cria este lugar no seu imaginário. O vazio o obriga a construir. No corredor, a bola continua rolando impulsionada pela falta. Durante esta longa travessia, ele escuta um conversa na cozinha, e tenta desenhar o Quem. Vazio. Quem? Um vulto. Quase, quase. Escapa.
Vazio.
Nada.
A arquitetura quase se esfacela, mas ele agarra os tijolos. Impositivo, reconstrói.
A lacuna não pode existir, é preciso construir. Construir na falta. Construir no escuro.  
Ele não sabe onde está, mas a arquitetura ainda está lá.
(Marcéu Pierrotti)

Sobre ontem. Ou a composição de uma perda hoje.

 Eu nunca fui a um velório! Eu disse isso ontem quando a Camila fazia uma pizza portuguesa para nós. Portuguesa era o estilo, o sabor era sardinha. Aprendeu a receita de tanto ajudar a sua avó a fazer. – Sua vó era carioca? – perguntei. Não. Portuguesa! – ela disse. Camila havia falado isso momentos antes, mas eu não tinha registrado. Os outros quatro ao redor da mesa já haviam retido essa informação óbvia.
A vó da Camila morreu em 2010 eu acho. Ela falou a data ontem. Eu não lembro. A minha vó Ana morreu em 2013, eu lembro. Não fui ao velório. Eu nunca fui. Já fui a alguns enterros. Poucos. Nenhum de alguém tão próximo. Da minha vó, não. Respaldado pela desculpa de morar em outro estado, não fui. Chorei um pouco no dia. Mas hoje dois anos e meio depois, isso me atravessou.
Estava caminhando com a Thaís e a Lola. Sol. Calor. Uma alameda coberta de árvores. A Lola me puxava querendo cheirar algo no mato. Enquanto a Thaís no meio de alguma história que me contava, falou em sotaque mineiro – "Que nem sua vó dizia: os olhos tão azul, que dava medo”.  
(Alguma interjeição de dor interna deveria aparecer aqui). Como um sopro, senti saudade. Somente dois anos e meio depois do acontecimento meu corpo sentiu que nunca mais ouviria e veria minha vó. Ela apareceu nítida na minha mente. Uma bela imagem. Poucos quadros. Se forçar minha imaginação, consigo alguma sequência. Com o que tenho registrado sobre minha vó, consigo vê-la agora na minha sala. Ela poderia falar – “Marcéu, liga a tv pra mim. Tá na hora da novela.” Ela adorava novela das seis. “Éramos seis”. Quando criança assisti todos os capítulos dessa novela ao lado dela e do meu vô. Tinha esquecido dessa novela.

Ontem, éramos seis ao redor da mesa. Enquanto a Camila preparava a pizza e contava sobre sua avó, não lembro de nada que tenha mexido comigo. Mas acho que aquela experiência pavimentou o caminho até alguma marca. E talvez a fala da Thaís, hoje, tenha sido só o combustível para eu me atravessar. Ou tudo isso é uma bobagem, e o ativador foi algo que eu nem suponho. Talvez o cheiro que a Lola sentiu no mato.
(Marcéu)

Imagem



https://soundcloud.com/cia-acacias95/imagem


Tudo o que é visível é talhado no que é tangível

Separar visível de visual

Como lidar e formar imagem a partir do que não é tangível?

Ressignificar os códigos, as infinitas possibilidades de reação.

A identificação está na dificuldade, nas lacunas, algo pra além do que está visível. O interessante é esse trabalho, é esse trabalho a mais.

No jogo da dialética, a alternância de poder é trocada o tempo todo. Estar e não estar. A criança joga e não sabe se o carretel volta. Isso nos ajuda a entender a ideia de que o objeto também nos olha. Poder de alteração, de mutabilidade.

Dilema: ou uma coisa ou outra

Dialética: ampliar esse questionamento

Capacidade de ressignificar.

A figura do cubo expõe esse contratempo, controverso, complexo de tão simples.
É inegavelmente um cubo, mas ao mesmo tempo é camaleônico, pode ser tudo. Os minimalistas todos experimentam  com vontade a figura do cubo e sua complexidade. 

Ontológico: visão rasa, o que é é o que é 

Epistemológico: olhar além, nosso meio influencia o olhar

Estamos sempre em reação à alguma coisa

O visual fere a certeza do que é visível

Prestar atenção em lugares na cidade e perceber o que nos chama atenção, pra onde olhamos, pra onde escolhemos não olhar. 

Pensar os sentidos em relação à memória, um bom começo para a investigação. 

O que mais belo você já fez na sua vida???

O que mais belo você já fez na sua vida???

O processo mais importante é o percurso, não o resultado. 

Potência sutil.

Como? O que quero gerar? O que posso? Como? Onde? Através de que situação?

Quando lembramos de uma sensação, não nos vem a memória daquilo. O que nos vem é a ressignificação da sensação da época.

Campo da razão 

Campo da sensibilidade, histeria

A interpretação do sentido 

Através do corpo convulsionado a partir da convivência transferencional.

Vivemos de acordo com as convenções. Partimos dessas convenções. 

Sujeito assujeitado.

Pensar é uma arte.

O pensamento sem corpo é o pensamento de repetição.

A criação te deixa aberto, estado de criação a partir do caos.

Limiar entre o caos e o macro. Senso comum. O desejo de criação.

Acessar o corpo é abrir caminhos pra essas possibilidades.

Esvaziamento da potência de vida.

É no encontro com o outro que eu posso acessar um campo de memória representada.

Significado. Significante.

Campo de representação.

Apresentação não é representação. É um corpo atravessado pela força, pelo acontecimento.

A gente tem toda a potencialidade do universo dentro da gente. 

O que faz o saber do corpo são essas possibilidades de ser afetado. Acordar esse lugar adormecido dentro de você.

A arte nos faz agrupar, nos faz conviver com a diferença.

Viver o coletivo.

Surgimento do sujeito.

Atualizar memória.

Moral. Ética.

Penso, logo existo.

Pensamento da representação. 

Sujeitos treinados pelo modelo de repetição. Moldes ortopédicos. Moldando a alma através da culpa. O corpo foi silenciado.

Tratar sintoma. Tudo no inconsciente.

Ativar o campo informe. Campo simbólico.

Problema da psicanálise: ficar amarrado à estrutura antiga.

Loucos do valão.

Sintoma é uma memória corporal do inconsciente. 

Trauma é quando você reconecta a memória corporal de alguma situação e não consegue sair.

O fascismo vem da encarceração dos corpos.

Não deixar que a regra interfira na vida.

Temporalidade do sintoma.

Significância do sintoma.

Qual o sentido do sintoma se ele não tem sentido? 

A gente tem que liberar os modos de existir.

A arte tá aí pra isso: acessar os campos não colonizados.

Campo. Hipocampo. Memória emocional.

Memória narrativa. Ponta do iceberg.

Tudo é memória. Dobra. Luz. Escuro.

Iluminar o que não se conhece. Memória subterrânea.

Outro corpo. Revelar o que não se conhece. Revelar o que se conhece. 

Somos feitos do que não sabemos.

(anotações de Julia)