terça-feira, 5 de julho de 2016

Improvisação de sexta-feira

Ele sentado no bar, falar feira que acabou.
Ela não liga olha para o espaço, seu novo lar. Pergunta dos detalhes.
Ele diz os detalhes da casa, os buracos no teto, o barulho da janela, a sujeira.
Ela acha ele estranho. Pergunta se ele é corretor. Ele gosta de detalhes.
Ela pergunta do bar.
Ele diz que não sabe, que não é dele.
Ela diz que ele bebe muito, ele diz que não bebe.
Ela quer uma bebida, ele some. (Fala com a moça no piano)
Ela faz que vai beber. Ele fala do preço.
Ela acha ele mercenário.
Ele pergunta se ela dança.
Ela diz que bem.
Ele pergunta o que.
Ela diz que dança polka. E mostra.
Ele pede pra ela dançar.
Ela diz que só dança se ele dançar tb.
Ele diz que não dança.
Ela diz que só dança se ele berrar na janela, "eu me amo".
Ele diz que faz isso se ela dançar na frente dele sem peruca...

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Ruy Silva



O decreto municipal nº 6.881/1987, no entanto, proíbe estabelecimentos de grande porte naquele trecho da via. Mesmo assim, a diretoria do Mundial informa, por meio de assessoria, que ainda não desistiu de erguer ali uma filial e que chegou a conseguir autorização para reformar o prédio, mas ela acabou revogada pela Secretaria municipal de Urbanismo. Sendo assim, a empresa agora estuda também se vende ou troca o terreno, pelo qual já recebeu de construtoras ofertas de até R$ 80 milhões.
O prédio-fantasma tem vidros estilhaçados e até uma árvore saindo pelo teto. Os tapumes estão tomados por cartazes irregulares. Procurada, a Secretaria Especial da Ordem Pública afirma que notificará e autuará as empresas responsáveis por eles.
Apesar do aparente abandono, o terreno é mantido limpo por funcionários do Mundial. A Coordenação de Vigilância Ambiental da Secretaria municipal de Saúde e Defesa Civil informa que vistoria o local constantemente e que, em julho, foram eliminados possíveis focos de dengue. Mesmo assim, as décadas de indefinição incomodam moradores dos arredores, como Ruy Silva.

sábado, 25 de junho de 2016

improvisação de sexta

Improvisação Marcéu e Jana

Eu no bar, ela no palco. A feira acabou. Eu odeio feira. Fica uma sujeira. Eles vão embora e a sujeira fica. Deveria ser proibido. Entra um cheiro ruim pela janela. Ela diz que agora a casa é dela. Eu sou o antigo proprietário. Falo dos buracos no teto. Já arrumei 4 vezes. A árvore levanta a telha, a água escorre e infiltra. Ela anda pelo palco e pelo camarim, vou narrando do bar onde estão os problemas. A Hera que entra pela janela do camarim. Tinha hera em toda a casa. Mandei tirar tudo.
Jana invade o bar. Ju toca piano. Eu para a Ju - Eu gosto quando você toca pra mim.
Jana pergunta se eu bebo. Digo que não muito. Mas as pessoas gostam. Abraço a Ju no piano. Brindo com ela. E volto a me relacionar com a Jana. Chamo a Julia para dançar. Pergunto para Jana se ela sabe dançar. Ela diz polca. pergunta se sei dançar , digo que não. Aposta. Ela dança polca se eu gritar na janela Eu me amo. Eu grito se você tirar essa peruca e dançar aqui na minha frente.

Possível régua para engrenagem de ficção

1930 -  começa o loteamento de propriedades rurais localizadas no Jardim da Gávea. O bairro passa a ser ocupado
1932 - A constroi a casa na decada de 30, onde mora por 9 anos e depois a abandona. Nesse período, planta uma hera no muro que cresce tão rápido que mesmo podando, da noite para o dia ela invade a casa quebrando as janelas. Ele era importador.
1952 - O minhocão é construído.
1968 - B, fugindo de um oficial durante a ditadura e se esconde no meio de um mato, que a engole . Assim encontra a casa por onde se abrigaria por 4 anos, até ser encontrada por um militar
1971 - É inaugurado com 1.522 metros de extensão, o túnel Zuzu Angel (antigo túnel Dois irmãos) e a especulação imobiliária começa a subir.
1972 - B é capturada
1972 - O pai de C, militar torturador, se muda para a casa com a esposa. Por anos tenta dar um jeito nas infiltrações da casa, mas a umidade que a hera produz nas paredes é inesgotável e irremediável. A essa altura ele já percebeu que a hera já entrou por entre todas as estruturas da casa e tirá-la de lá seria demolir tudo.
1973 - C nasce e durante a infância se torna obcecado pela própria imagem no espelho, que por algum desvio, é compreendida por ele como uma mulher mais velha e serena, D
1982 - Abrem um buraco no minhocão para chegar mais rapidamente ao túnel Zuzu Angel
1985 - Acaba a ditadura e a família de C deixa a casa.
1985 a 2016 -  D sai do espelho e vagueia à deriva pelos assoalhos, atravessando paredes, precipitando-se do teto, e evaporando no chão.

2016 - E, ex rica falida, parente distantíssima de A descobre que é única herdeira do imóvel abandonado na Gávea e sem nenhuma outra opção se muda para a casa que a essa altura já é um aquário.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Exercício Clarice

Aqui era escuro
Aqui era sorvete, era dia
Era um monte de era seca
Era um hospital
Aqui era um pensionato
Aqui era um alfaiate
Era uma casa que morava gente
Uma loja, um escritório, uma academia
Uma pista de dança cheia
Aqui era uma festa, um jardim
Aqui era uma casa grande com escravo
Aqui era cinema, quadro negro
Um caminhão que carregava árvore
Uma piscina olímpica, uma repartição 
Aqui era tanta janela, tanta porta
Aqui era um monte de madeira pintada
Uma farmácia que não tinha telefone
Uma telefonista de sapato amarelo
Uma padaria que não tinha pão

terça-feira, 17 de maio de 2016

Cultivando Heras - dramaturgia relâmpago do que se viu



Os cinco estão parados, cada um em um canto da sala. Após uns muitos segundos, Jana se movimenta. Vai para outro cômodo e volta. Ficam mais tempo ali, parados.
Jana vai para a janela observar a chuva que acaba de aumentar. Todos a observam de seus lugares.

P – Ta tudo bem com ela?
Todos acham que sim.


P - Daqui desse ângulo, olhando para lá, tirando esse amarelo, parece outro lugar.

Todos querem ver, menos Jana que ainda está na janela. Ela volta, discreta, e se põe atrás de todos para ver também.
Eles mudam o lugar que vêem e então mudam o lugar que estão.


Começam a arrumar o espaço. Alguma coisa vai acontecer ali. Talvez uma festa.

C – Flores podres e normais não tem diferença de cheiro.

Ela adota as flores podres e as quer na mesa. Quando Camila não vê, alguém tira as flores. Camila busca e as põe novamente na mesa. Julia não gosta. Pedro salpica pétalas no cabelo de Camila. Não dá para entender se ele zomba dela ou se é um ato de carinho.


Composição.


Pedro destrói as flores e joga pétalas em todos, agressivamente. Ele não destrói  as flores podres que estão protegidas por Camila. Não é uma guerra, é um ataque.
O chão está cheio de pétalas. Não é exatamente bonito como sugere um chão de pétalas. São flores destruídas.


Todos sentam. Jana senta depois.


Composição.


Eles colocam e tiram os vasos e as flores, arrumam cadeiras e mesas de diversas formas. Jana recebe todos que chegam à casa.


Começam a arrumar o espaço. Pedro é um pouco bruto, usa a pá de vassoura, parece desleixado.
Pedro diz que o Ministério da Cultura acabou. Todos olham para ele. Ninguém parece ligar. Marceu se interessa pelo assunto, mas por não entender a relevância da noticia. Tenta gravidade nisso tudo, mas não se afeta diretamente.


Eles varrem o espaço.



Pedro, Jana e Julia

Pedro no meio. Jana dois metros atrás dele e Julia três a frente. Não se olham.
Jana olha para a nuca de Pedro. Ele vira, retribui o olhar e abaixa a cabeça, com um leve e breve sorriso.
Elas bebem.

Jana (para Pedro) – É café.
Julia – “Quer café?”
Jana – “É café”
Pedro – Quero.
Pedro sai para pegar café.


Jana fala no ouvido de Julia e é chamada de grossa. Pedro volta e eles conversam sobre médicos, otorrino, sobre ter ouvido absoluto. Jana tem ouvido absoluto.


Pedro fecha o espaço. Fecha as cortinas e as portas.


Jana – O que você faz bem?
Julia – Omelete.
Pedro – Risoto.
Jana – Eu canto.
Julia (para Jana) – Canta.
Jana – Não posso. Acordei meio “arg!”.


Jana olha para Júlia. Aponta para ela. Ela está bonita, engraçada, falsa quando tenta.
Júlia tenta ser bonita e engraçada aos olhos de Jana.


Brincam de se ouvir pelo espaço. Testam lugares diferentes. A voz de um afasta. A cortina abafa o som. Eles procuram lugares para falar e se ouvir. O espaço fica vazio.


Julia reaparece e abre bruscamente a cortina. Revela Pedro escrevendo caligrafia  num quadro.
Pedro acusa Jana de mentir. Jana mente, diz que não disse alguma coisa que disse. Julia implica com Jana. Pedro eleva o tom e elas, sentadas, se acalmam.


Julia tira foto de tudo que pode. Invade o espaço de Jana, as vezes. Pedro, que está agora atrás do quadro, ensaia um pé de bailarina.



Camila e Marceu

M – A sombra que você está fazendo no chão parece uma igreja.

Camila sai e aparece com uma cruz. Ela tenta reproduzir aquela imagem agora com a cruz. Uma imagem mais leal da igreja. Não consegue como queria e desiste. A cruz é pendurada na parede.

M – Não acredita em nada?
C – Numa força maior?
M – Sim, tem tanta coisa. Você por exemplo: acredito.

C – Eu não sou católica. Me pergunta pelo velho mandamento.


Eles cantam as musicas da igreja católica. “Não lembro a letra, mas lembro da musicalidade”. Fizeram catecismo, mas não são católicos.
Rezam Ave Maria. Não acertam. Não acertam o credo também, mas insistem. E não acertam.

M – Quer ligar para a mãe do...
C – Não.


Camila tenta fazer Marceu parecer com Ave Maria. Põe lenço na cabeça dele e o faz ficar em posição de reza.

M – Eu faço sinal da cruz quando vejo o cristo.
C – Quando trovejava, minha avó rezava comigo e me deixava mais tranqüila.

Tentam novamente o credo. Marceu agora anota. “Crê em Deus pai todo poderoso, criador... o que ele criou?”. Tentam um pouco e desistem sem chamar atenção para isso.


Batucando, Marceu pergunta se Camila gosta de samba. Seu pai o levava quando criança em rodas de samba e tocava algum instrumento com ele no colo. Ele se lembra de saltitar no ritmo da musica.
Eles cantam e percebem que a musica também fala de Deus. “Eles são católicos!”.
Tentam lembrar da musica toda, como fizeram com a reza.


Ainda criança, Marceu era incentivado pelo pai a falar outras línguas na frente de amigos da família. Ele contava em inglês e japonês. Seu pai adorava. Marceu parece que teve que cumprir algumas expectativas do pai.

C - Crê em Deus pai, todo poderoso... é difícil traduzir para o inglês porque tem muito adjetivo.


Cantam em inglês para Deus, ou o Papai Noel.

M - O que você quer pedir?





Jana e Pedro

Eles estão frente a frente, quase como num espelho. Jana se posta com os pés paralelos, parece não estar disposta a fazer movimentos. Pedro se apóia em seu pé que está mais a frente, vai andar. Jana vai em direção a Pedro.
Falam juntos. Se atropelam. Um possível constrangimento vira brincadeira. Falam rápido para se atropelar e brincar mais disso. E se encontram.

Jana, tentando espremer a espinha interna da orelha de Pedro: “Essa eu tenho que dar uma agulhada. Se tentar agora, só vou te machucar.”

Pedro está no colo da Jana como um bebê. Ela o põe para dormir como o pai dele fazia, dando tapas. Conforme o comando de Pedro, Jana faz cara de impaciente. Aumenta a força dos tapas. Ele faz gosta.

Pedro propõe uma selfie. Eles fazem pose para a foto.
P – Ficou legal.
J – Saiu certinho?
P – Sim, só saiu eu.

Eles tiram fotos um do outro. Se exploram pela maquina.

Pedro, com sua impossibilidade de ser bailarina por conta do seu pé chato, fala sobre os balés que conhece para Jana. Reproduz um corpo de bailarina, sua mão vira seu pé, faz um corpo “ruim” de bailarina.

Sobre gostar ou não de apanhar.
P – Me bate como você bate nele.
Jana vai para cima de Pedro e o abraça. Com Jana pendurado nos ombros, Pedro vai até a maquina e tira uma foto com o dedão do pé.
Eles se soltam. Jana chorou. Ela bate um pouco nele. Eles se mordem, parecem se testar em meio a mordidas e risadas. Até onde aguentam?
Eles se soltam, já no chão, desse confronto um pouco animal, sexual ou infantil e se postam deitados um do lado do outro ofegantes.



Marceu e Felipe

Felipe sua na mão e Marceu percebe. Felipe diz que já pensou em botar botox para parar de suar. Marceu diz que existe cirurgia para isso e que um amigo já fez para melhorar a performance em um jogo. Ele conta sobre o jogo sem especificar qual é.

F – Ponto de que?
M – Ponto?
F – Você falou. Ponto de que?
M – Do jogo. 15 pontos.

Marceu ensina a pontuação do jogo para Felipe que anota tudo no caderno de Marceu.

Felipe joga uma borracha em Marceu que se assusta. Felipe comemora 15 pontos.

Felipe conta como jogava esse jogo na infância. Ele pegava porta, pedaço de madeira e chinelo e improvisava um jogo. Marceu diz que ele e seu amigo jogam tênis e que aquilo que Felipe jogava era ping pong. São esportes diferentes, contagens diferentes.

Marceu começa a contar como quebrou uma raquete de tênis. Felipe continua sua historia. Marceu parece contar pela boca de Felipe.
F – Você já contou essa historia.
M – E você não contou historia nenhuma.


Marceu invade espaço de Felipe o toca, toca no seu rosto. Ele não o agride fisicamente, mas é violento.
Felipe se arma com sua raquete/chinelo.

Eles simulam um jogo. Felipe parece querer aliança e é repelido por Marceu.

F – A primeira vez que pensei em perder alguém foi na grade da tia Roberta. 12(?) anos e idade. Dia das mães. Ela não chegou.

M – Ta com raiva?
F – Ta agressivo desde o começo do jogo, achou que eu nao ficaria com raiva?
M – Nao gosto de perder.
F – E o que voce perdeu?
M – Muita coisa.
F – Um jogo de tênis? Gordura? A sua namoradinha? Nao passou de primeira no vestibular? Passou de segunda? Voce nao gosta de perder porque so ganha. A nossa diferença é essa. Eu só perco.
Marceu para. Eles param. Marceu vai até o camarim e volta com um suco igual ao que Felipe havia tomado a poucos minutos.
M – Queria fazer alguma coisa que você já fez, sentir alguma coisa que você já sentiu.
Toma o suco.

Felipe propõe que joguem com o chinelo. Ele ganha de Marceu.



Camila e Júlia

Julia está sentada e Camila arruma o espaço.

Júlia machuca Camila com um ação aparentemente delicada.
C – Inchou minha mão. (compara suas mãos) Aqui vejo osso e aqui não.

Se comparam. Pele grossa, pele fina. Pé com pé. Orelha com orelha. Dedo do pé com orelha.

Usam suas mãos de molde para desenhar outras mãos no quadro. “Uma nova mão a partir da nossa”.

Como seriamos se juntássemos partes dos nossos corpos? E se entrassem partes dos corpos dos outros? Criam uma figura. Procuram um nome.
Desenham agora uma na outra.

Camila lambe a tinta, prova seu gosto. Propõe que Júlia prove também. Ela nao quer. Camila, chamada de fresca há não muito tempo, acusa agora Júlia de ser fresca. Para ratificar, lambe o pé de Julia.
J - Lamber não é o mesmo que tocar. Você não lambe o chão que pisa.

Se tocam, fazem cócegas, lambem, desenham, beijam num clima de brincadeira infantil.

Pensam e desenham a complexidade da letra “F”.

Ao fim, o mural vira uma grande bagunça. Parece que crianças passaram por lá.




Não dei conta de anotar o do Walace, porque poxa...

Jana - É dificil ser atriz.
Walace - Também acho, mas eu aguento.


(anotações de Pedro Yudi)

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Indagações para possíveis arquiteturas da memória

ou das coisas que voltei me perguntando no trajeto para casa.

1 - Como se convida para participar de uma experiência e quais os modos de relação com o espectador?

2 - Como atravessar linguagens? 

3 - Como as personagens retornam em novas formas?

4 - Como se exprime a Casa Grande/Senzala no cotidiano da Gávea?

5 - Como trazer a praça de Olaria para a praça da Gávea?

6 - Como um movimento de caos se configura e desconfigura consecutivamente?

7 - Quando eu entropio?

8 - Como fazer uma dramaturgia de passarelas?

9 - Como fazer uma dramaturgia em que nada se abandona?

10 - Como os fantasmas atravessam paredes?

11 - Como usar o "ou" e o "e" como passarela dos tempos?

12 - Quais são as unidades poéticas de medida de tempo?


sábado, 30 de abril de 2016

Encontros

                                                                                                 Eu respeito os acasos.   
Negar um encontro é negar a possibilidade de transformação.
                               Um acontecimento.
O espaço está vazio.                              Eles tinham dançado em cima da mesa. 
A música ainda é ouvida, mesmo sem ser tocada.       As coisas que realmente importam não são tocadas.

A presença dela ainda está no corredor. Eles estão no corredor, é possível ouvir. O mar verde. Os olhos. Fixados. Um brisa quente. Um vestido. O espaço é rasgado. Uma fenda. O tempo é outro. É aqui. O piano ainda está lá. As paredes estão aqui. Um beijo. 13 anos. Ele disse não. Ela disse tudo bem e deu o beijo. Tava escuro. Não. Ele tinha 10. Não. Tinha 12 anos. Não estava tão escuro. Ele disse não querendo dizer sim. A mão dela tava fria. O maxilar duro. A areia fofa. Ele nunca tinha dançado em cima da mesa. Isso é uma transformação. Ele respeita isso. É preciso respeitar os encontros. Os corpos. A superfície da pele. Ele se sentia livre. Seja lá o que livre for. Os corpos se tocavam mas não era possível tocar o que acontecia entre os corpos. A música...No espaço. Eles caminham pelo Arpoador. Não. Eles estão em um banheiro. Um quarto. Um quarto de hotel em Cuba. Eles estão aqui embaixo. No Braseiro. Estão almoçando. Eles poderiam estar aqui. O piano ainda está lá. As paredes estão ali. Que horas são?

domingo, 24 de abril de 2016

Primeiros textos com Fernando

Marcéu

Ninguém tinha me levado para a praia naquele dia. Pela manhã eles tinham me prometido, mas meu pai ficou enrolado arrumando o barco, e minha mãe dizia não ser capaz de me levar para surfar sozinha. Vendo a noite chegar, tive a certeza que não sentiria o sal colar no meu corpo. Peguei a prancha. Fechei a porta. E fui surfar.
Ondas grandes, pequenas, tubulares, meu colchão se transformava em uma variedade delas. Tomei um caldo. Caí. No chão, vi a quilha quebrada. Doeu. De repente, meu California Dream desabou e com ele minhas lágrimas. Frustação. – Brincadeira estúpida. A vergonha tomou conta de mim, e eu não consegui contar o que aconteceu. Disse que fui pegar a prancha em cima do beliche e ela caiu. Minha mãe resolveu facilmente. Colocou a culpa na Maria. – Onde já se viu guardar prancha lá em cima. A Casa Grande mandava, a Senzala obedecia.

Instantaneamente tive um alívio por não ser pego, porém a vergonha e a culpa estavam me esperando no travesseiro.   

domingo, 17 de abril de 2016

Primeiros textos com Fernando...

JANAINA

1 - Encontro. Carona. Café. Conversas sobre desdobramentos da memória, e possibilidades 

artísticas. “O que de mais belo, você já fez na vida?” Lembranças de casa. Nem sempre 

saber tudo de uma história é o mais importante. Sair do lugar conhecido, usual. Meu 

aniversário de 30 anos. ...“o luto põe o mundo em movimento”. Onde esse texto te toca 

pessoalmente? Pessoalmente...                        Um texto só cumpre seu papel, se 

estabelece algum diálogo com quem o lê. Se o leitor consegue estabelecer pontes de 

contato entre o texto e algo em si. Se é modificado. Se não é só um texto.  A linha tênue 

entre presente, passado e futuro. A sensação de que fazemos parte de algo além. Qual o 

nosso poder de escolha? Até onde podemos modificar o que nos está acontecendo agora? 

E todas as revoluções? Somos movidos pelas perdas?  Memória como lacuna. O que já não 

é. Que agora é mais vivo do que nunca. Quem nunca?



2 – Chão vermelho. Trancas na porta da sala. Banheira grande, no único banheiro. Chico 

Buarque na parede do corredor. A mão da Ana que eu segurava até adormecer. O quarto 

que eu dividi com minha mãe por alguns anos. O Gonzaguinha na vitrola. O batente da 

porta da cozinha sujo dos meus pés de menina que sabiam escalar. Rua Real Grandeza 

171, apt 602, ao lado da padaria Imperial. Mil folhas de doce de leite, quindim, frango 

assado na televisão de cachorros (como dizia a minha mãe) e pão quentinho quando eu 

chegava do ballet. Dos 4 aos 29. Ana Lúcia, que me colocava no banho, quando eu não 

queria tomar, que me dava batata frita escondido da minha mãe, que me dava a mão pra eu 

dormir, quando minha mãe ainda não tinha chegado do trabalho, minha mãe, que me amou, 

que me alimentou, me acalentou e aguentou a adolescente revoltada sozinha, que sempre 

esteve ali. A mulher mais forte do mundo. E meu pai. Dele lá, eu só lembro da minha 

ansiedade em esperá-lo chegar. Ah, e o Cristo. Um janelão com vista pro Cristo. Foi onde 

eu vivi quase tudo. Todos os meus inícios.


JULIA

1º texto (narrativo)

Eram 5 atores e um diretor. Eles, brasileiros. Ele, argentino. Dois cafés em dias anteriores 

haviam sido necessários para que quebrassem o gelo entre eles, para que se conhecessem 

um pouco. Essa seria então a terceira vez que se veriam, o terceiro encontro. Ele chegou 

de carona com uma das atrizes do grupo. Enquanto esperavam o café ficar pronto, 

ocuparam as cadeiras dispostas em torno da mesa e conversaram durante muito tempo. A 

harmonia entre eles era visível e a diferença de idioma, que talvez pudesse ser um 

problema, colaborou para que todos estivessem com a escuta ainda mais ativada naquela 

terça-feira. Pareceram realmente se reconhecer alí. Em um dado momento, fecharam os 

olhos e olharam pra dentro. O diretor dividiu o seu olhar entre os 5 atores, que continuavam 

olhando pra dentro. Depois discutiram desejos e definiram tarefas para um próximo 

encontro. Também tomaram café.


2º texto (1ª pessoa)

Quando ele nos pediu pra lembrar de uma casa da infância, eu escolhi a casa da minha vó. 

Um cheiro de bolo quentinho invadiu a minha cabeça. Tentei, talvez, pensar num outro 

cenário, num lugar um pouco mais recente pra mim, mas não consegui. Eu era invadida por 

gelatinas multi-coloridas com perfume de frutas que me lembravam aquelas balinhas da 

porta do colégio. Eu amava as balinhas da porta do colégio. Me deliciava com aquele 

guarda-chuva de chocolate que tinha cheiro de manteiga e que me lembrava tudo, menos 

chocolate. Na casa da minha vó, o chocolate era chocolate de verdade. E a bala de coco 

não tinha essência de baunilha como tinham as balas do colégio. Durante uma boa parte da 

minha adolescência eu usei colônia de baunilha, mas hoje prefiro os perfumes cítricos. Os 

doces me enjoam.


CAMILA

TEXTO 1

1º de março de 2016. 1º encontro com Fernando. 1ª vez em que nos permitimos ser o 

próprio objeto a ser pesquisado. 1ª vez em que nossos corpos teórico-práticos são apenas um. O 

corpo se faz presente a partir do pensamento. 

Fernando fala sobre espaços da cidade que estão escondidos, sobre os que não vemos ou 

escolhemos não ver. Eu me pergunto: como construo uma imagem? Qual espaço há para minha 

imaginação e para o que eu vejo ou deixo de ver? Ele nos pergunta qual memória esqueceria. Eu 

penso que nunca precisei de muito esforço para esquecer as coisas e que provavelmente eu passei 

por experiências que queria esquecer e de fato, esqueci. Mas esqueço das coisas que lembro e 

gostaria de esquecer. Nesse momento, me perco um pouco do grupo, pensando em mim, nas 

minhas lacunas entre lembranças. Não sei sobre o que falaram. Retorno quando Fernando nos 

pergunta qual memória gostaríamos de ter. Na sequência, ele nos propõe percorrer uma casa de 

nossa infância e percebo que as lacunas da minha memória se tornam espaços físicos desse lugar 

que vivi até os 7 anos. Lembro do meu quarto inteiro, mas não da cama em que dormia. Abre-se ali 

um vazio real, concreto, de um espaço não habitado por um móvel que eu sei que existia. Esse vazio 

se desdobra na cama de meus pais, exatamente no momento em que tentando fugir do sono, botei 

a cabeça no ombro da minha mãe e perguntei se crianças morriam. Durante todo meu trajeto do 

quarto até a cozinha os objetos ausentes em minha memória se desdobram em situações e em 

novas imagens, initerruptamente. 

Ao final do exercício lembro do Didi-Huberman citando as ondas do mar e do fascínio da 

Janaina ao perceber a sucessão infinita de mortes que as imagens podem carregar.


TEXTO 2

Minha avó morreu no dia de seu nascimento, aos 80 anos. Foi também o dia da minha 

primeira estreia no teatro. Na noite anterior, ao falar com minha mãe pelo telefone, pedi que ela 

não me ligasse no dia seguinte porque queria ficar sozinha e disse que nos encontraríamos ao final 

do espetáculo . Não queria falar com ninguém; havia em mim um misto de ansiedade, medo e 

desânimo.  A peça foi terrível: esqueci texto, errei marcas, entrei com as calças abertas. Sentia-me 

oca, vazia, como se eu estivesse esgotada. Não saía uma lágrima ou riso. Ao final do espetáculo, 

muito chateada e solitariamente, corri para o hall de entrada do teatro, onde todos esperavam os 

atores. Meus olhos rapidamente buscaram a minha mãe, e quando ela se virou para me retribuir o 

olhar, sua expressão era de tanta pena em relação a mim, que eu entendi o que havia acontecido. O 

seu olhar, à distancia, silenciou qualquer enunciado, e me fez transbordar em lágrimas. Enquanto ela 

cruzava a sala para me abraçar, eu pensei que minha avó não poderia ter feito isso comigo naquele 

dia; era muito injusto. Senti ódio e imediatamente vergonha por odiar alguém que eu amava 

demais, no dia da sua morte. Porém, eu precisava e queria estar feliz, como todos deviam estar 

naquele salão.  A interposição entre a vida e a morte abriam em mim um buraco tão grande quanto 

o silêncio da minha mãe naqueles breves segundos. Ao tentar descer as estreitas escadas do lugar, 

uma mão me puxou de volta, pedindo uma fotografia. Alguém beijou meu rosto, eu esperei um 

clique e fui embora dali, onde me parece que já não estava desde o início.




A Memória de Shakespeare (Borges)


A Memória de Shakespeare




 

Há devotos de Goethe, das Eddas e do tardio cantar dos Nibelungos; Shakespeare foi meu destino. Ainda é, mas de um modo que ninguém teria podido pressentir, salvo um único homem, Daniel Thorpe, que acaba de morrer em Pretória. Há outro cujo rosto nunca vi.

Sou Hermann Soergel. O curioso leitor talvez tenha folheado minha “Cronologia de Shakespeare”, que achei ser necessária certa vez à boa inteligência do texto e que foi traduzida para vários idiomas, inclusive o castelhano. Não é impossível que recorde também uma prolongada polêmica sobre certa emenda que Theobald intercalou em sua edição crítica de 1734 e que, desde essa data, é parte não discutida do cânone.
Hoje, surpreende-me o tom incivil daquelas quase alheias páginas. Por volta de 1914 redigi, e não entreguei à publicação, um estudo sobre as palavras compostas que o helenista e dramaturgo George Chapman forjou para suas versões homéricas e que retrocedem o inglês, sem que ele pudesse suspeitar disso, a sua origem (Urprung) anglo-saxônica. Nunca pensei que sua voz, que esqueci agora, ser-me-ia familiar… Alguma separata assinada com iniciais completas, creio, minha biografia literária. Não sei se é lícito acrescentar uma versão inédita de Macbeth, que realizei para não continuar pensando na morte de meu irmão Oito Julius, que caiu na frente ocidental em 1917. Não a concluí; compreendi que o inglês dispõe, para seu bem, de dois registros – o germânico e o latino –, enquanto nosso alemão, apesar de sua melhor música, deve limitar-se a um só.

Nomeei Daniel Thorpe. Apresentou-o a mim o major Barclay, em certo congresso shakespeariano. Não direi o lugar nem a data; sei muito bem que tais precisões são, na realidade, imprecisões. Mais importante que o rosto de Daniel Thorpe, que minha cegueira parcial me ajuda a esquecer, era sua notória infelicidade. Ao longo dos anos, um homem pode simular muitas coisas, mas não a felicidade. De modo quase físico, Daniel Thorpe exalava melancolia. Depois de uma longa sessão, a noite encontrou-nos em uma taverna qualquer. Para sentir-nos na Inglaterra (onde já estávamos), apuramos em rituais jarras de peltre, cerveja morna e negra.

– No Punjab – disse o major – mostraram-me um mendigo. Uma tradição do Islã atribui ao rei Salomão um anel que lhe permitia entender a língua dos pássaros. Era fama que o mendigo tinha em seu poder o anel. Seu valor era tão inestimável que nunca pôde vendê-lo e morreu em um dos pátios da mesquita de Wazil Khan, em Lahore. Pensei que Chaucer não desconhecesse a fábula do prodigioso anel, mas dizê-lo teria sido o mesmo que estragar a historieta de Barclay.

– E o anel? – perguntei.

– Perdeu-se, segundo o costume dos objetos mágicos.
Talvez esteja agora em algum esconderijo da mesquita ou na mão de um homem que viva em algum lugar onde faltem pássaros.

– Ou onde haja tantos – disse – que o que dizem se confunde.

– Sua história, Barclay, tem alguma coisa de parábola.

Foi então que Daniel Thorpe falou. Ele o fez de modo impessoal, sem olhar-nos. Pronunciava o inglês de modo peculiar, que atribuí a uma longa permanência no Oriente.

– Não é uma parábola – disse ele –, e, se o for, é verdade.
Há coisas de um valor tão inestimável que não podem ser vendidas. As palavras que tento reconstruir me impressionaram menos do que a convicção com que as disse Daniel Thorpe. Achamos que diria algo mais, mas de repente calou-se, como que arrependido. Barclay despediu-se. Juntos, nós dois voltamos ao hotel. Era muito tarde, mas Daniel Thorpe propôs-me que prosseguíssemos a conversa em seu quarto. Após algumas trivialidades, disse-me:

– Ofereço-lhe o anel do rei. É claro que se trata de uma metáfora, mas o que essa metáfora encobre não é menos prodigioso que o anel. Ofereço-lhe a memória de Shakespeare desde os dias mais pueris e antigos até os do início de abril de 1616. Não acertei em pronunciar uma palavra. Foi como se me oferecessem o mar. Thorpe continuou:

– Não sou um impostor. Não estou louco. Rogo-lhe que não julgue até depois de ouvir-me. O major deve ter-lhe dito que sou, ou era, médico militar. A história cabe em poucas palavras. Começa no Oriente, ao alvorecer, em um hospital de sangue. A data precisa não importa. Em suas últimas palavras, um soldado raso, Adam Clay, que havia sido atingido por duas descargas de fuzil, ofereceu-me, pouco antes do fim, a preciosa memória. A agonia e a febre são inventivas; aceitei a oferta sem dar-lhe crédito. Além disso, depois de uma ação de guerra, nada é muito estranho. Mal teve tempo de explicar-me as singulares condições do presente. O possuidor tem de oferecê-lo em voz alta e o outro, de aceitá-lo. Aquele que o oferece perde-o para sempre. O nome do soldado e a cena patética da entrega pareceram-me literários, no mau sentido da palavra.

Um pouco intimidado, perguntei-lhe:

– O senhor, agora, tem a memória de Shakespeare?

Thorpe respondeu:

– Tenho, ainda, duas memórias. A minha pessoal e a daquele Shakespeare que parcialmente sou. Ou melhor, duas memórias me têm. Há uma zona em que se confundem. Há um rosto de mulher que não sei a que século atribuir.

Perguntei-lhe então:

– O que fez o senhor com a memória de Shakespeare?

Houve um silêncio. Depois disse:

– Escrevi uma biografia romanceada que mereceu o desdém da crítica e algum sucesso comercial nos Estados Unidos e nas colônias. Acho que é tudo. Preveni-o de que meu presente não é uma sinecura. Continuo à espera de sua resposta.

Fiquei pensando. Não havia consagrado minha vida, não menos incolor que estranha, à busca de Shakespeare? Não seria justo que no fim da jornada eu desse com ele?

Disse, articulando bem cada palavra:

– Aceito a memória de Shakespeare.

Algo, sem dúvida, aconteceu, mas não percebi.

Apenas um princípio de fadiga, talvez imaginária.

Lembro claramente que Thorpe me disse:

– A memória já entrou em sua consciência, mas é preciso descobri-la. Surgirá nos sonhos, na vigília, ao virar as folhas de um livro ou ao dobrar uma esquina. O senhor não se impaciente, não invente lembranças. O acaso pode favorecê-lo ou atrasá-lo, segundo seu misterioso modo. À medida que eu vá esquecendo, o senhor recordará. Não lhe prometo um prazo.

O que sobrava da noite foi dedicado a discutir o caráter de Shylock. Abstive-me de indagar se Shakespeare havia tido contato pessoal com judeus. Não quis que Thorpe imaginasse que eu o submetia a uma prova. Comprovei, não sei se com alívio ou com inquietação, que suas opiniões eram tão acadêmicas e tão convencionais como as minhas.

Apesar da vigília anterior, quase não dormi na noite seguinte. Descobri, como em outras tantas ocasiões, que eu era um covarde. Pelo temor de ser defraudado, não me entreguei à generosa esperança. Quis pensar que era ilusório o presente de Thorpe. Irresistivelmente, a esperança prevaleceu. Shakespeare seria meu, como ninguém foi de ninguém, nem no amor, nem na amizade, nem sequer no ódio. De algum modo eu seria Shakespeare. Não escreveria as tragédias nem os intrincados sonetos, mas recordaria o instante em que me foram reveladas as bruxas, que também são as parcas, e aquele outro em que me foram dadas as vastas linhas:

 

And shake the yoke of inauspicious stars
From this worldweary flesh.

 

Lembraria Anne Hathaway como lembro aquela mulher, já madura, que me ensinou o amor em um apartamento de Lübeck, há tantos anos. (Tentei recordá-la e só pude recuperar o papel de parede, que era amarelo, e a claridade que vinha da janela. Esse primeiro fracasso deveria antecipar-me os demais).

Eu havia postulado que as imagens da prodigiosa memória seriam, antes de mais nada, visuais. Não foi o que aconteceu. Dias depois, ao barbear-me, pronunciei ante o espelho algumas palavras que me surpreenderam e que pertenciam, como um colega me assinalou, ao A, B, C de Chaucer. Uma tarde, ao sair do Museu Britânico, assobiei uma melodia muito simples que nunca ouvira.

Já terá o leitor percebido o traço comum dessas primeiras revelações de uma memória que era, apesar do esplendor de algumas metáforas, bem mais auditiva do que visual. De Quincey afirma que o cérebro do homem é um palimpsesto. Cada nova escrita encobre a escrita anterior e é encoberta pela seguinte, mas a todo-poderosa memória pode exumar qualquer impressão, por mais momentânea que tenha sido, se lhe derem o suficiente estímulo. A julgar por seu testamento, não havia um único livro, nem sequer a Bíblia, na casa de Shakespeare, mas ninguém ignora as obras que freqüentou. Chaucer, Gower, Spenser, Christopher Marlowe, a Crônica de Holinshed, o Montaigne de Florio, o Plutarco de North. Eu possuía de maneira latente a memória de Shakespeare; a leitura, quer dizer, a releitura desses velhos volumes seria o estímulo que procurava. Reli também os sonetos, que são sua obra mais imediata. Em algum momento encontrei a explicação ou várias explicações. Os bons versos impõem a leitura em voz alta; depois de alguns dias recuperei sem esforço os erres ásperos e as vogais abertas do século XVI.

Escrevi na Zeitschrift für germanische Philologie que o soneto 127 referia-se à memorável derrota da Armada Invencível. Não lembrei que Samuel Butler, em 1899, já havia formulado essa tese. Uma visita a Stratford-on-Avon foi, previsivelmente, estéril. Depois ocorreu a transformação gradual de meus sonhos. Não me foram oferecidos, como a De Quincey, pesadelos esplêndidos nem piedosas visões alegóricas, à maneira de seu mestre, Jean Paul. Rostos e quartos desconhecidos adentraram minhas noites. O primeiro rosto que identifiquei foi o de Chapman; depois, o de Ben Jonson e o de um vizinho do poeta, que não consta nas biografias, mas que Shakespeare veria com freqüência.

Quem adquire uma enciclopédia não adquire cada linha, cada parágrafo, cada página e cada gravura; adquire a mera possibilidade de conhecer algumas dessas coisas. Se isso acontece com um ente concreto e relativamente simples, tendo em vista a ordem alfabética das partes, o que não acontecerá com um ente abstrato e variável, ondoyant et divers, como a mágica memória de um morto?

A ninguém é dado abarcar em um único instante a plenitude de seu passado. Nem a Shakespeare, que eu saiba, nem a mim, que fui seu parcial herdeiro, ofereceram esse dom. A memória do homem não é uma soma; é uma desordem de possibilidades indefinidas. Santo Agostinho, se não me engano, fala dos palácios e cavernas da memória. A segunda metáfora é a mais justa. Foi nessas cavernas que entrei. Tal como a nossa, a memória de Shakespeare incluía zonas, grandes zonas de sombra repelidas voluntariamente por ele. Não sem algum escândalo lembrei que Ben Jonson fazia-lhe recitar hexâmetros latinos e gregos e que o ouvido, o
incomparável ouvido de Shakespeare, costumava errar uma quantidade deles, em meio às risadas dos colegas.

Conheci estados de felicidade e de sombra que transcendem a comum experiência humana. Sem que eu soubesse, a longa e estudiosa solidão havia-me preparado para a dócil recepção do milagre. Depois de uns trinta dias, a memória do morto animava-me. Durante uma semana de curiosa felicidade, quase acreditei ser Shakespeare. A obra renovou-se para mim. Sei que a lua, para Shakespeare, era menos a lua que Diana e menos Diana que essa obscura palavra que se demora: moon. Anotei outra descoberta. As aparentes negligências de Shakespeare, essas absence dans l’infini de que apologeticamente fala Hugo, foram deliberadas. Shakespeare tolerou-as, ou as intercalou, para que seu discurso, destinado à cena, parecesse espontâneo, nem burilado nem artificial demais (nicht allzu glatt und gekünstelt). Essa mesma razão levou-o a misturar suas metáforas.

 

My way of life

Is fall´n into the sear, the yellow leaf.

 

Certa manhã discerni uma culpa no fundo de sua memória, Não procurei defini-la; Shakespeare o fez para sempre. Para mim, basta declarar que essa culpa nada tinha em comum com a perversão. Compreendi que as três faculdades da alma humana, memória, entendimento e vontade, não são uma ficção escolástica. A memória de Shakespeare não podia revelar-me outra coisa que as circunstâncias de Shakespeare. É evidente que estas não constituem a singularidade do poeta; o que importa é a obra que executou com esse material inconsistente.

Ingenuamente, eu havia premeditado, como Thorpe, uma biografia. Não demorei em descobrir que esse gênero Literário requer condições de escritor que por certo não são minhas. Não sei narrar. Não sei narrar minha própria história, que é bem mais extraordinária que a de Shakespeare. Além do mais, esse livro seria inútil. O acaso ou o destino deram a Shakespeare as triviais coisas terríveis que todo homem conhece; ele soube transmutá-las em fábulas, em personagens muito mais vividos que o homem cinza que sonhou com eles, em versos que as gerações não deixarão desaparecer, em música verbal. Para que destecer essa rede, para que minar a torre, para que reduzir às módicas proporções de uma biografia documental ou de um romance realista o som e a fúria de Macbeth?

Goethe constitui, segundo se sabe, o culto oficial da Alemanha; mais íntimo é o culto a Shakespeare, que professamos com nostalgia. (Na Inglaterra, Shakespeare, que tão distante está dos ingleses, constitui o culto oficial; o livro da Inglaterra é a Bíblia). Na primeira etapa da aventura senti a felicidade de ser Shakespeare; na última, a opressão e o terror. No início, as duas memórias não misturavam suas águas. Com o tempo, o grande rio de Shakespeare ameaçou, e quase afogou, meu modesto caudal. Percebi com temor que estava esquecendo a língua de meus pais. Já que a identidade pessoal baseia-se na memória, temi por minha razão.

Meus amigos vinham visitar-me; assombrou-me que não percebessem que eu estava no inferno. Comecei a não entender as coisas cotidianas que me rodeavam (díe alltägliche Umwelt). 1 Certa manhã perdi-me entre grandes formas de ferro, de madeira e de cristal. Aturdiram- me assobios e clamores. Demorei um instante, que pôde parecer-me infinito, em reconhecer as máquinas e vagões da estação de Brêmen. À medida que transcorrem os anos, todo homem é obrigado a suportar o crescente peso de sua memória. Duas me angustiavam, confundindo-se às vezes: a minha e a do outro, incomunicável.

Todas as coisas querem perseverar em seu ser, escreveu Spinoza. A pedra quer ser uma pedra, o tigre, um tigre, eu queria voltar a ser Hermann Soergel. Esqueci a data em que decidi libertar-me. Dei com o método mais fácil. No telefone marquei números ao acaso. Vozes de criança ou de mulher respondiam. Achei que meu dever era respeitá-las. Dei por fim com uma voz culta de homem. Disse-lhe:

– Você quer a memória de Shakespeare? Sei que o que lhe ofereço é muito sério. Pense bem.

Uma voz incrédula replicou:

– Enfrentarei esse risco. Aceito a memória de Shakespeare.

Declarei as condições da dádiva. Paradoxalmente, sentia ao mesmo tempo a nostalgia do livro que eu deveria ter escrito e que me foi proibido escrever e o temor de que o hóspede, o espectro, nunca me deixasse.

Desliguei o telefone e repeti como uma esperança estas resignadas palavras:

Simply the thing I am shall make me live.

Eu havia imaginado disciplinas para despertar a antiga memória; tive de buscar outras para apagá-la. Uma entre tantas foi o estudo da mitologia de William Blake, discípulo rebelde de Swedenborg. Comprovei que era menos complexa do que complicada.

Esse e outros caminhos foram inúteis; todos levavam-me a Shakespeare.

Encontrei, enfim, a única solução para povoar a espera: a estrita e vasta música, Bach. PS. 1924 – Já sou um homem entre os homens. Na vigília sou o professor emérito Hermann Soergel; manuseio um fichário e redijo trivialidades eruditas, mas na aurora sei, algumas vezes, que aquele que sonha é o outro. De vez em quando, surpreendem-me pequenas e fugazes memórias que talvez sejam autênticas.