terça-feira, 5 de julho de 2016

Improvisação de sexta-feira

Ele sentado no bar, falar feira que acabou.
Ela não liga olha para o espaço, seu novo lar. Pergunta dos detalhes.
Ele diz os detalhes da casa, os buracos no teto, o barulho da janela, a sujeira.
Ela acha ele estranho. Pergunta se ele é corretor. Ele gosta de detalhes.
Ela pergunta do bar.
Ele diz que não sabe, que não é dele.
Ela diz que ele bebe muito, ele diz que não bebe.
Ela quer uma bebida, ele some. (Fala com a moça no piano)
Ela faz que vai beber. Ele fala do preço.
Ela acha ele mercenário.
Ele pergunta se ela dança.
Ela diz que bem.
Ele pergunta o que.
Ela diz que dança polka. E mostra.
Ele pede pra ela dançar.
Ela diz que só dança se ele dançar tb.
Ele diz que não dança.
Ela diz que só dança se ele berrar na janela, "eu me amo".
Ele diz que faz isso se ela dançar na frente dele sem peruca...

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Ruy Silva



O decreto municipal nº 6.881/1987, no entanto, proíbe estabelecimentos de grande porte naquele trecho da via. Mesmo assim, a diretoria do Mundial informa, por meio de assessoria, que ainda não desistiu de erguer ali uma filial e que chegou a conseguir autorização para reformar o prédio, mas ela acabou revogada pela Secretaria municipal de Urbanismo. Sendo assim, a empresa agora estuda também se vende ou troca o terreno, pelo qual já recebeu de construtoras ofertas de até R$ 80 milhões.
O prédio-fantasma tem vidros estilhaçados e até uma árvore saindo pelo teto. Os tapumes estão tomados por cartazes irregulares. Procurada, a Secretaria Especial da Ordem Pública afirma que notificará e autuará as empresas responsáveis por eles.
Apesar do aparente abandono, o terreno é mantido limpo por funcionários do Mundial. A Coordenação de Vigilância Ambiental da Secretaria municipal de Saúde e Defesa Civil informa que vistoria o local constantemente e que, em julho, foram eliminados possíveis focos de dengue. Mesmo assim, as décadas de indefinição incomodam moradores dos arredores, como Ruy Silva.

sábado, 25 de junho de 2016

improvisação de sexta

Improvisação Marcéu e Jana

Eu no bar, ela no palco. A feira acabou. Eu odeio feira. Fica uma sujeira. Eles vão embora e a sujeira fica. Deveria ser proibido. Entra um cheiro ruim pela janela. Ela diz que agora a casa é dela. Eu sou o antigo proprietário. Falo dos buracos no teto. Já arrumei 4 vezes. A árvore levanta a telha, a água escorre e infiltra. Ela anda pelo palco e pelo camarim, vou narrando do bar onde estão os problemas. A Hera que entra pela janela do camarim. Tinha hera em toda a casa. Mandei tirar tudo.
Jana invade o bar. Ju toca piano. Eu para a Ju - Eu gosto quando você toca pra mim.
Jana pergunta se eu bebo. Digo que não muito. Mas as pessoas gostam. Abraço a Ju no piano. Brindo com ela. E volto a me relacionar com a Jana. Chamo a Julia para dançar. Pergunto para Jana se ela sabe dançar. Ela diz polca. pergunta se sei dançar , digo que não. Aposta. Ela dança polca se eu gritar na janela Eu me amo. Eu grito se você tirar essa peruca e dançar aqui na minha frente.

Possível régua para engrenagem de ficção

1930 -  começa o loteamento de propriedades rurais localizadas no Jardim da Gávea. O bairro passa a ser ocupado
1932 - A constroi a casa na decada de 30, onde mora por 9 anos e depois a abandona. Nesse período, planta uma hera no muro que cresce tão rápido que mesmo podando, da noite para o dia ela invade a casa quebrando as janelas. Ele era importador.
1952 - O minhocão é construído.
1968 - B, fugindo de um oficial durante a ditadura e se esconde no meio de um mato, que a engole . Assim encontra a casa por onde se abrigaria por 4 anos, até ser encontrada por um militar
1971 - É inaugurado com 1.522 metros de extensão, o túnel Zuzu Angel (antigo túnel Dois irmãos) e a especulação imobiliária começa a subir.
1972 - B é capturada
1972 - O pai de C, militar torturador, se muda para a casa com a esposa. Por anos tenta dar um jeito nas infiltrações da casa, mas a umidade que a hera produz nas paredes é inesgotável e irremediável. A essa altura ele já percebeu que a hera já entrou por entre todas as estruturas da casa e tirá-la de lá seria demolir tudo.
1973 - C nasce e durante a infância se torna obcecado pela própria imagem no espelho, que por algum desvio, é compreendida por ele como uma mulher mais velha e serena, D
1982 - Abrem um buraco no minhocão para chegar mais rapidamente ao túnel Zuzu Angel
1985 - Acaba a ditadura e a família de C deixa a casa.
1985 a 2016 -  D sai do espelho e vagueia à deriva pelos assoalhos, atravessando paredes, precipitando-se do teto, e evaporando no chão.

2016 - E, ex rica falida, parente distantíssima de A descobre que é única herdeira do imóvel abandonado na Gávea e sem nenhuma outra opção se muda para a casa que a essa altura já é um aquário.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Exercício Clarice

Aqui era escuro
Aqui era sorvete, era dia
Era um monte de era seca
Era um hospital
Aqui era um pensionato
Aqui era um alfaiate
Era uma casa que morava gente
Uma loja, um escritório, uma academia
Uma pista de dança cheia
Aqui era uma festa, um jardim
Aqui era uma casa grande com escravo
Aqui era cinema, quadro negro
Um caminhão que carregava árvore
Uma piscina olímpica, uma repartição 
Aqui era tanta janela, tanta porta
Aqui era um monte de madeira pintada
Uma farmácia que não tinha telefone
Uma telefonista de sapato amarelo
Uma padaria que não tinha pão

terça-feira, 17 de maio de 2016

Cultivando Heras - dramaturgia relâmpago do que se viu



Os cinco estão parados, cada um em um canto da sala. Após uns muitos segundos, Jana se movimenta. Vai para outro cômodo e volta. Ficam mais tempo ali, parados.
Jana vai para a janela observar a chuva que acaba de aumentar. Todos a observam de seus lugares.

P – Ta tudo bem com ela?
Todos acham que sim.


P - Daqui desse ângulo, olhando para lá, tirando esse amarelo, parece outro lugar.

Todos querem ver, menos Jana que ainda está na janela. Ela volta, discreta, e se põe atrás de todos para ver também.
Eles mudam o lugar que vêem e então mudam o lugar que estão.


Começam a arrumar o espaço. Alguma coisa vai acontecer ali. Talvez uma festa.

C – Flores podres e normais não tem diferença de cheiro.

Ela adota as flores podres e as quer na mesa. Quando Camila não vê, alguém tira as flores. Camila busca e as põe novamente na mesa. Julia não gosta. Pedro salpica pétalas no cabelo de Camila. Não dá para entender se ele zomba dela ou se é um ato de carinho.


Composição.


Pedro destrói as flores e joga pétalas em todos, agressivamente. Ele não destrói  as flores podres que estão protegidas por Camila. Não é uma guerra, é um ataque.
O chão está cheio de pétalas. Não é exatamente bonito como sugere um chão de pétalas. São flores destruídas.


Todos sentam. Jana senta depois.


Composição.


Eles colocam e tiram os vasos e as flores, arrumam cadeiras e mesas de diversas formas. Jana recebe todos que chegam à casa.


Começam a arrumar o espaço. Pedro é um pouco bruto, usa a pá de vassoura, parece desleixado.
Pedro diz que o Ministério da Cultura acabou. Todos olham para ele. Ninguém parece ligar. Marceu se interessa pelo assunto, mas por não entender a relevância da noticia. Tenta gravidade nisso tudo, mas não se afeta diretamente.


Eles varrem o espaço.



Pedro, Jana e Julia

Pedro no meio. Jana dois metros atrás dele e Julia três a frente. Não se olham.
Jana olha para a nuca de Pedro. Ele vira, retribui o olhar e abaixa a cabeça, com um leve e breve sorriso.
Elas bebem.

Jana (para Pedro) – É café.
Julia – “Quer café?”
Jana – “É café”
Pedro – Quero.
Pedro sai para pegar café.


Jana fala no ouvido de Julia e é chamada de grossa. Pedro volta e eles conversam sobre médicos, otorrino, sobre ter ouvido absoluto. Jana tem ouvido absoluto.


Pedro fecha o espaço. Fecha as cortinas e as portas.


Jana – O que você faz bem?
Julia – Omelete.
Pedro – Risoto.
Jana – Eu canto.
Julia (para Jana) – Canta.
Jana – Não posso. Acordei meio “arg!”.


Jana olha para Júlia. Aponta para ela. Ela está bonita, engraçada, falsa quando tenta.
Júlia tenta ser bonita e engraçada aos olhos de Jana.


Brincam de se ouvir pelo espaço. Testam lugares diferentes. A voz de um afasta. A cortina abafa o som. Eles procuram lugares para falar e se ouvir. O espaço fica vazio.


Julia reaparece e abre bruscamente a cortina. Revela Pedro escrevendo caligrafia  num quadro.
Pedro acusa Jana de mentir. Jana mente, diz que não disse alguma coisa que disse. Julia implica com Jana. Pedro eleva o tom e elas, sentadas, se acalmam.


Julia tira foto de tudo que pode. Invade o espaço de Jana, as vezes. Pedro, que está agora atrás do quadro, ensaia um pé de bailarina.



Camila e Marceu

M – A sombra que você está fazendo no chão parece uma igreja.

Camila sai e aparece com uma cruz. Ela tenta reproduzir aquela imagem agora com a cruz. Uma imagem mais leal da igreja. Não consegue como queria e desiste. A cruz é pendurada na parede.

M – Não acredita em nada?
C – Numa força maior?
M – Sim, tem tanta coisa. Você por exemplo: acredito.

C – Eu não sou católica. Me pergunta pelo velho mandamento.


Eles cantam as musicas da igreja católica. “Não lembro a letra, mas lembro da musicalidade”. Fizeram catecismo, mas não são católicos.
Rezam Ave Maria. Não acertam. Não acertam o credo também, mas insistem. E não acertam.

M – Quer ligar para a mãe do...
C – Não.


Camila tenta fazer Marceu parecer com Ave Maria. Põe lenço na cabeça dele e o faz ficar em posição de reza.

M – Eu faço sinal da cruz quando vejo o cristo.
C – Quando trovejava, minha avó rezava comigo e me deixava mais tranqüila.

Tentam novamente o credo. Marceu agora anota. “Crê em Deus pai todo poderoso, criador... o que ele criou?”. Tentam um pouco e desistem sem chamar atenção para isso.


Batucando, Marceu pergunta se Camila gosta de samba. Seu pai o levava quando criança em rodas de samba e tocava algum instrumento com ele no colo. Ele se lembra de saltitar no ritmo da musica.
Eles cantam e percebem que a musica também fala de Deus. “Eles são católicos!”.
Tentam lembrar da musica toda, como fizeram com a reza.


Ainda criança, Marceu era incentivado pelo pai a falar outras línguas na frente de amigos da família. Ele contava em inglês e japonês. Seu pai adorava. Marceu parece que teve que cumprir algumas expectativas do pai.

C - Crê em Deus pai, todo poderoso... é difícil traduzir para o inglês porque tem muito adjetivo.


Cantam em inglês para Deus, ou o Papai Noel.

M - O que você quer pedir?





Jana e Pedro

Eles estão frente a frente, quase como num espelho. Jana se posta com os pés paralelos, parece não estar disposta a fazer movimentos. Pedro se apóia em seu pé que está mais a frente, vai andar. Jana vai em direção a Pedro.
Falam juntos. Se atropelam. Um possível constrangimento vira brincadeira. Falam rápido para se atropelar e brincar mais disso. E se encontram.

Jana, tentando espremer a espinha interna da orelha de Pedro: “Essa eu tenho que dar uma agulhada. Se tentar agora, só vou te machucar.”

Pedro está no colo da Jana como um bebê. Ela o põe para dormir como o pai dele fazia, dando tapas. Conforme o comando de Pedro, Jana faz cara de impaciente. Aumenta a força dos tapas. Ele faz gosta.

Pedro propõe uma selfie. Eles fazem pose para a foto.
P – Ficou legal.
J – Saiu certinho?
P – Sim, só saiu eu.

Eles tiram fotos um do outro. Se exploram pela maquina.

Pedro, com sua impossibilidade de ser bailarina por conta do seu pé chato, fala sobre os balés que conhece para Jana. Reproduz um corpo de bailarina, sua mão vira seu pé, faz um corpo “ruim” de bailarina.

Sobre gostar ou não de apanhar.
P – Me bate como você bate nele.
Jana vai para cima de Pedro e o abraça. Com Jana pendurado nos ombros, Pedro vai até a maquina e tira uma foto com o dedão do pé.
Eles se soltam. Jana chorou. Ela bate um pouco nele. Eles se mordem, parecem se testar em meio a mordidas e risadas. Até onde aguentam?
Eles se soltam, já no chão, desse confronto um pouco animal, sexual ou infantil e se postam deitados um do lado do outro ofegantes.



Marceu e Felipe

Felipe sua na mão e Marceu percebe. Felipe diz que já pensou em botar botox para parar de suar. Marceu diz que existe cirurgia para isso e que um amigo já fez para melhorar a performance em um jogo. Ele conta sobre o jogo sem especificar qual é.

F – Ponto de que?
M – Ponto?
F – Você falou. Ponto de que?
M – Do jogo. 15 pontos.

Marceu ensina a pontuação do jogo para Felipe que anota tudo no caderno de Marceu.

Felipe joga uma borracha em Marceu que se assusta. Felipe comemora 15 pontos.

Felipe conta como jogava esse jogo na infância. Ele pegava porta, pedaço de madeira e chinelo e improvisava um jogo. Marceu diz que ele e seu amigo jogam tênis e que aquilo que Felipe jogava era ping pong. São esportes diferentes, contagens diferentes.

Marceu começa a contar como quebrou uma raquete de tênis. Felipe continua sua historia. Marceu parece contar pela boca de Felipe.
F – Você já contou essa historia.
M – E você não contou historia nenhuma.


Marceu invade espaço de Felipe o toca, toca no seu rosto. Ele não o agride fisicamente, mas é violento.
Felipe se arma com sua raquete/chinelo.

Eles simulam um jogo. Felipe parece querer aliança e é repelido por Marceu.

F – A primeira vez que pensei em perder alguém foi na grade da tia Roberta. 12(?) anos e idade. Dia das mães. Ela não chegou.

M – Ta com raiva?
F – Ta agressivo desde o começo do jogo, achou que eu nao ficaria com raiva?
M – Nao gosto de perder.
F – E o que voce perdeu?
M – Muita coisa.
F – Um jogo de tênis? Gordura? A sua namoradinha? Nao passou de primeira no vestibular? Passou de segunda? Voce nao gosta de perder porque so ganha. A nossa diferença é essa. Eu só perco.
Marceu para. Eles param. Marceu vai até o camarim e volta com um suco igual ao que Felipe havia tomado a poucos minutos.
M – Queria fazer alguma coisa que você já fez, sentir alguma coisa que você já sentiu.
Toma o suco.

Felipe propõe que joguem com o chinelo. Ele ganha de Marceu.



Camila e Júlia

Julia está sentada e Camila arruma o espaço.

Júlia machuca Camila com um ação aparentemente delicada.
C – Inchou minha mão. (compara suas mãos) Aqui vejo osso e aqui não.

Se comparam. Pele grossa, pele fina. Pé com pé. Orelha com orelha. Dedo do pé com orelha.

Usam suas mãos de molde para desenhar outras mãos no quadro. “Uma nova mão a partir da nossa”.

Como seriamos se juntássemos partes dos nossos corpos? E se entrassem partes dos corpos dos outros? Criam uma figura. Procuram um nome.
Desenham agora uma na outra.

Camila lambe a tinta, prova seu gosto. Propõe que Júlia prove também. Ela nao quer. Camila, chamada de fresca há não muito tempo, acusa agora Júlia de ser fresca. Para ratificar, lambe o pé de Julia.
J - Lamber não é o mesmo que tocar. Você não lambe o chão que pisa.

Se tocam, fazem cócegas, lambem, desenham, beijam num clima de brincadeira infantil.

Pensam e desenham a complexidade da letra “F”.

Ao fim, o mural vira uma grande bagunça. Parece que crianças passaram por lá.




Não dei conta de anotar o do Walace, porque poxa...

Jana - É dificil ser atriz.
Walace - Também acho, mas eu aguento.


(anotações de Pedro Yudi)

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Indagações para possíveis arquiteturas da memória

ou das coisas que voltei me perguntando no trajeto para casa.

1 - Como se convida para participar de uma experiência e quais os modos de relação com o espectador?

2 - Como atravessar linguagens? 

3 - Como as personagens retornam em novas formas?

4 - Como se exprime a Casa Grande/Senzala no cotidiano da Gávea?

5 - Como trazer a praça de Olaria para a praça da Gávea?

6 - Como um movimento de caos se configura e desconfigura consecutivamente?

7 - Quando eu entropio?

8 - Como fazer uma dramaturgia de passarelas?

9 - Como fazer uma dramaturgia em que nada se abandona?

10 - Como os fantasmas atravessam paredes?

11 - Como usar o "ou" e o "e" como passarela dos tempos?

12 - Quais são as unidades poéticas de medida de tempo?