Os cinco estão parados, cada um em um canto da sala. Após uns muitos segundos, Jana se movimenta. Vai para outro cômodo e volta. Ficam mais tempo ali, parados.
Jana vai para a janela observar a chuva que acaba de aumentar. Todos a observam de seus lugares.
P – Ta tudo bem com ela?
Todos acham que sim.
P - Daqui desse ângulo, olhando para lá, tirando esse amarelo, parece outro lugar.
Todos querem ver, menos Jana que ainda está na janela. Ela volta, discreta, e se põe atrás de todos para ver também.
Eles mudam o lugar que vêem e então mudam o lugar que estão.
Começam a arrumar o espaço. Alguma coisa vai acontecer ali. Talvez uma festa.
C – Flores podres e normais não tem diferença de cheiro.
Ela adota as flores podres e as quer na mesa. Quando Camila não vê, alguém tira as flores. Camila busca e as põe novamente na mesa. Julia não gosta. Pedro salpica pétalas no cabelo de Camila. Não dá para entender se ele zomba dela ou se é um ato de carinho.
Composição.
Pedro destrói as flores e joga pétalas em todos, agressivamente. Ele não destrói as flores podres que estão protegidas por Camila. Não é uma guerra, é um ataque.
O chão está cheio de pétalas. Não é exatamente bonito como sugere um chão de pétalas. São flores destruídas.
Todos sentam. Jana senta depois.
Composição.
Eles colocam e tiram os vasos e as flores, arrumam cadeiras e mesas de diversas formas. Jana recebe todos que chegam à casa.
Começam a arrumar o espaço. Pedro é um pouco bruto, usa a pá de vassoura, parece desleixado.
Pedro diz que o Ministério da Cultura acabou. Todos olham para ele. Ninguém parece ligar. Marceu se interessa pelo assunto, mas por não entender a relevância da noticia. Tenta gravidade nisso tudo, mas não se afeta diretamente.
Eles varrem o espaço.
Pedro, Jana e Julia
Pedro no meio. Jana dois metros atrás dele e Julia três a frente. Não se olham.
Jana olha para a nuca de Pedro. Ele vira, retribui o olhar e abaixa a cabeça, com um leve e breve sorriso.
Elas bebem.
Jana (para Pedro) – É café.
Julia – “Quer café?”
Jana – “É café”
Pedro – Quero.
Pedro sai para pegar café.
Jana fala no ouvido de Julia e é chamada de grossa. Pedro volta e eles conversam sobre médicos, otorrino, sobre ter ouvido absoluto. Jana tem ouvido absoluto.
Pedro fecha o espaço. Fecha as cortinas e as portas.
Jana – O que você faz bem?
Julia – Omelete.
Pedro – Risoto.
Jana – Eu canto.
Julia (para Jana) – Canta.
Jana – Não posso. Acordei meio “arg!”.
Jana olha para Júlia. Aponta para ela. Ela está bonita, engraçada, falsa quando tenta.
Júlia tenta ser bonita e engraçada aos olhos de Jana.
Brincam de se ouvir pelo espaço. Testam lugares diferentes. A voz de um afasta. A cortina abafa o som. Eles procuram lugares para falar e se ouvir. O espaço fica vazio.
Julia reaparece e abre bruscamente a cortina. Revela Pedro escrevendo caligrafia num quadro.
Pedro acusa Jana de mentir. Jana mente, diz que não disse alguma coisa que disse. Julia implica com Jana. Pedro eleva o tom e elas, sentadas, se acalmam.
Julia tira foto de tudo que pode. Invade o espaço de Jana, as vezes. Pedro, que está agora atrás do quadro, ensaia um pé de bailarina.
Camila e Marceu
M – A sombra que você está fazendo no chão parece uma igreja.
Camila sai e aparece com uma cruz. Ela tenta reproduzir aquela imagem agora com a cruz. Uma imagem mais leal da igreja. Não consegue como queria e desiste. A cruz é pendurada na parede.
M – Não acredita em nada?
C – Numa força maior?
M – Sim, tem tanta coisa. Você por exemplo: acredito.
C – Eu não sou católica. Me pergunta pelo velho mandamento.
Eles cantam as musicas da igreja católica. “Não lembro a letra, mas lembro da musicalidade”. Fizeram catecismo, mas não são católicos.
Rezam Ave Maria. Não acertam. Não acertam o credo também, mas insistem. E não acertam.
M – Quer ligar para a mãe do...
C – Não.
Camila tenta fazer Marceu parecer com Ave Maria. Põe lenço na cabeça dele e o faz ficar em posição de reza.
M – Eu faço sinal da cruz quando vejo o cristo.
C – Quando trovejava, minha avó rezava comigo e me deixava mais tranqüila.
Tentam novamente o credo. Marceu agora anota. “Crê em Deus pai todo poderoso, criador... o que ele criou?”. Tentam um pouco e desistem sem chamar atenção para isso.
Batucando, Marceu pergunta se Camila gosta de samba. Seu pai o levava quando criança em rodas de samba e tocava algum instrumento com ele no colo. Ele se lembra de saltitar no ritmo da musica.
Eles cantam e percebem que a musica também fala de Deus. “Eles são católicos!”.
Tentam lembrar da musica toda, como fizeram com a reza.
Ainda criança, Marceu era incentivado pelo pai a falar outras línguas na frente de amigos da família. Ele contava em inglês e japonês. Seu pai adorava. Marceu parece que teve que cumprir algumas expectativas do pai.
C - Crê em Deus pai, todo poderoso... é difícil traduzir para o inglês porque tem muito adjetivo.
Cantam em inglês para Deus, ou o Papai Noel.
M - O que você quer pedir?
Jana e Pedro
Eles estão frente a frente, quase como num espelho. Jana se posta com os pés paralelos, parece não estar disposta a fazer movimentos. Pedro se apóia em seu pé que está mais a frente, vai andar. Jana vai em direção a Pedro.
Falam juntos. Se atropelam. Um possível constrangimento vira brincadeira. Falam rápido para se atropelar e brincar mais disso. E se encontram.
Jana, tentando espremer a espinha interna da orelha de Pedro: “Essa eu tenho que dar uma agulhada. Se tentar agora, só vou te machucar.”
Pedro está no colo da Jana como um bebê. Ela o põe para dormir como o pai dele fazia, dando tapas. Conforme o comando de Pedro, Jana faz cara de impaciente. Aumenta a força dos tapas. Ele faz gosta.
Pedro propõe uma selfie. Eles fazem pose para a foto.
P – Ficou legal.
J – Saiu certinho?
P – Sim, só saiu eu.
Eles tiram fotos um do outro. Se exploram pela maquina.
Pedro, com sua impossibilidade de ser bailarina por conta do seu pé chato, fala sobre os balés que conhece para Jana. Reproduz um corpo de bailarina, sua mão vira seu pé, faz um corpo “ruim” de bailarina.
Sobre gostar ou não de apanhar.
P – Me bate como você bate nele.
Jana vai para cima de Pedro e o abraça. Com Jana pendurado nos ombros, Pedro vai até a maquina e tira uma foto com o dedão do pé.
Eles se soltam. Jana chorou. Ela bate um pouco nele. Eles se mordem, parecem se testar em meio a mordidas e risadas. Até onde aguentam?
Eles se soltam, já no chão, desse confronto um pouco animal, sexual ou infantil e se postam deitados um do lado do outro ofegantes.
Marceu e Felipe
Felipe sua na mão e Marceu percebe. Felipe diz que já pensou em botar botox para parar de suar. Marceu diz que existe cirurgia para isso e que um amigo já fez para melhorar a performance em um jogo. Ele conta sobre o jogo sem especificar qual é.
F – Ponto de que?
M – Ponto?
F – Você falou. Ponto de que?
M – Do jogo. 15 pontos.
Marceu ensina a pontuação do jogo para Felipe que anota tudo no caderno de Marceu.
Felipe joga uma borracha em Marceu que se assusta. Felipe comemora 15 pontos.
Felipe conta como jogava esse jogo na infância. Ele pegava porta, pedaço de madeira e chinelo e improvisava um jogo. Marceu diz que ele e seu amigo jogam tênis e que aquilo que Felipe jogava era ping pong. São esportes diferentes, contagens diferentes.
Marceu começa a contar como quebrou uma raquete de tênis. Felipe continua sua historia. Marceu parece contar pela boca de Felipe.
F – Você já contou essa historia.
M – E você não contou historia nenhuma.
Marceu invade espaço de Felipe o toca, toca no seu rosto. Ele não o agride fisicamente, mas é violento.
Felipe se arma com sua raquete/chinelo.
Eles simulam um jogo. Felipe parece querer aliança e é repelido por Marceu.
F – A primeira vez que pensei em perder alguém foi na grade da tia Roberta. 12(?) anos e idade. Dia das mães. Ela não chegou.
M – Ta com raiva?
F – Ta agressivo desde o começo do jogo, achou que eu nao ficaria com raiva?
M – Nao gosto de perder.
F – E o que voce perdeu?
M – Muita coisa.
F – Um jogo de tênis? Gordura? A sua namoradinha? Nao passou de primeira no vestibular? Passou de segunda? Voce nao gosta de perder porque so ganha. A nossa diferença é essa. Eu só perco.
Marceu para. Eles param. Marceu vai até o camarim e volta com um suco igual ao que Felipe havia tomado a poucos minutos.
M – Queria fazer alguma coisa que você já fez, sentir alguma coisa que você já sentiu.
Toma o suco.
Felipe propõe que joguem com o chinelo. Ele ganha de Marceu.
Camila e Júlia
Julia está sentada e Camila arruma o espaço.
Júlia machuca Camila com um ação aparentemente delicada.
C – Inchou minha mão. (compara suas mãos) Aqui vejo osso e aqui não.
Se comparam. Pele grossa, pele fina. Pé com pé. Orelha com orelha. Dedo do pé com orelha.
Usam suas mãos de molde para desenhar outras mãos no quadro. “Uma nova mão a partir da nossa”.
Como seriamos se juntássemos partes dos nossos corpos? E se entrassem partes dos corpos dos outros? Criam uma figura. Procuram um nome.
Desenham agora uma na outra.
Camila lambe a tinta, prova seu gosto. Propõe que Júlia prove também. Ela nao quer. Camila, chamada de fresca há não muito tempo, acusa agora Júlia de ser fresca. Para ratificar, lambe o pé de Julia.
J - Lamber não é o mesmo que tocar. Você não lambe o chão que pisa.
Se tocam, fazem cócegas, lambem, desenham, beijam num clima de brincadeira infantil.
Pensam e desenham a complexidade da letra “F”.
Ao fim, o mural vira uma grande bagunça. Parece que crianças passaram por lá.
Não dei conta de anotar o do Walace, porque poxa...
Jana - É dificil ser atriz.
Walace - Também acho, mas eu aguento.
(anotações de Pedro Yudi)